"PORQUE ONDE ESTIVER O TEU TESOURO, ALI ESTARÁ O TEU CORAÇÃO". Mt 6,21
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sigmund Freud: Incrédulo


Revista Pergunte e Responderemos – março 2006

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

O pai da Psicanálise, Sigmund Freud (+ 1939), foi um judeu que se disse abertamente incrédulo. Esta sua posição não podia deixar de influir nos seus escritos. Abaixo vai publicada uma breve coletânea de textos em que Freud manifesta sua cosmovisão ateia.
Tal documentação é transcrita da revista ULTIMATO, novembro-dezembro 2005, pp. 23s, revista a cujo diretor agradecemos a autorização de a publicar.
 
Freud Descrente

Um ano antes de morrer, Freud, já octogenário, fez mais uma vez sua pública profissão de fé na não-existência de Deus numa carta dirigida ao historiador Charles Singer: “Jamais em minha vida particular ou nos meus escritos eu escondi o fato de que sou descrente de ‘cabo a rabo’”. Ele se referia a si mesmo, aparentemente sem escrúpulos, como um “médico sem deus”, ou um “materialista”, um “ateu”, um “descrente” e um “infiel”.
Nascido e educado na religião judaica e casado com uma mulher que era neta de rabino, Freud, quando criança, devia cantar ou recitar os dois únicos salmos iguais do Saltério, que começam com a declaração: “Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’” (Sl 14,1; 53.1). contudo, era seu primeiro ensaio sobre a visão do mundo religioso (Ações obsessivas e práticas religiosas); dá a entender que tolo é aquele que tem necessidade de fé, a pessoa que não avança em seus estudos.

No dia 6 de maio de 1891, o pai de Sigmund Freud, Jacob Freud, lhe deu de presente uma velha Bíblia na qual o filho havia lido quando criança, como a seguinte dedicatória: “Você enxergou neste livro a visão do Todo-Poderoso, você ouviu de boa vontade, você o praticou e tentou voar alto nas asas do Espírito Santo. Desde então, eu preservei a mesma Bíblia. Agora, no seu 35º aniversário, eu tirei o pó dela e a estou enviando a você, como prova de amor do seu velho pai”.¹
Embora citasse frequentemente a Bíblia, tanto o Antigo como o Novo Testamento, e tivesse familiaridade com a Palavra de Deus, Freud afirmava que as Escrituras “estão cheias de contradições, revisões e falsificações”.²
Além da influência judaica, Freud recebeu influência cristã através da ama-seca “feia, bastante velha”, que lhe falava do Deus Altíssimo e do inferno e o levava à missa em Freiberg, na Morávia, onde ele nasceu, naquela época com uma população de 4 a 5 mil habitantes, quase todos católicos.
Sob o prisma da psicanálise, Freud dizia que Deus não nos criou à sua imagem, mas fomos nós que criamos Deus à imagem dos nossos pais. Às vezes, ele ia longe demais: “Não tenho temor nenhum do Todo-Poderoso. Se nós viermos a nos encontrar um dia, provavelmente terei mais queixas contra Ele, do que Ele poderia ter de mim”³

A frase mais infeliz de Freud foi pronunciada quando ele era estudante universitário em Viena: “Não pretendo me entregar”.4 O futuro médico referia-se à sua disposição de resistir a qualquer influência que o levasse a crer em Deus. E ele conseguiu. Mais ou menos na mesma ocasião, Freud fez dois cursos de Filosofia: um deles foi sobre a existência de Deus. Não foi fácil escapar das aulas nem da influência de Fanz Brentano, professor de Filosofia na Universidade de Viena, “um homem notável, um crente, um teólogo, um camarada danado de esperto, de fato um gênio”. Freud chegou a vacilar e cogitou a possibilidade de tornar-se crente. Foi quanto fez uma quase-confissão: “É desnecessário dizer que sou um ateu somente por necessidade, e sou honesto o suficiente para confessar que sou incapaz de refutar os argumentos dele [Brentano]; entretanto, não tenho nenhuma intenção de me entregar tão rápida ou completamente”.5

Teria o Espírito Santo advertido Freud com as mesmas palavras ditas a Saulo na entrada de Damasco: “Resistir ao aguilhão só lhe trará dor” (At 26,14)?
O fato é que Freud ofereceu forte resistência a todas as oportunidades que lhe surgiam na vida para deixar de ser ateu. Ele passou de largo por aquilo que Immanuel Kant chama de “placas de sinalização” – o céu estrelado acima e a lei moral dentro de nós, tudo apontando com clareza inconfundível para Deus.
Parece que Freud conhecia o famoso livro A Imitação de Cristo, atribuído ao teólogo alemão Tomás de Kempis, nascido por volta de 1380. Também não provocou mudança alguma o encontro pessoal que ele teve com o filósofo e psicólogo americano William James, um ateu convertido ao cristianismo, em sua única visita aos Estados Unidos, em 1909. A essa altura, James estava com 67 anos e acabar de publicar O Significado da Verdade, e Freud tinha 53 anos. O nova-iorquino William James era especialista em teologia propriamente dita (natureza e existência de Deus) e na imortalidade da alma.  O livro favorito de Freud não era outro senão o clássico Paraíso Perdido, o maior poema épico da língua inglesa, leitura obrigatória dos puritanos e dos não-conformistas da Inglaterra por dois séculos, escrito por John Milton em 1667.

A influência cristã mais duradoura, mais didática e mais amável que Freud recebeu na vida foi pela correspondência com o pastor reformado Oskar Pfister, doutor em Filosofia e Teologia, residente em Zurique, na Suíça. Por longos 30 anos (de 1909 a 1939), Freud e Pfister (este 17 anos mais moço que aquele) trocaram cartas entre si.6
Um dos poemas prediletos de Freud era Lázaro, do poeta alemão Heinrich Heine, quase 60 anos mais velho do que o médico de Viena. Armand Nicholi, autor de Deus em Questão – C.S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida (Editora Ultimato, 2005), supõe que a atração de Freud pela história da ressurreição de Lázaro reflita o seu próprio desejo de permanência.
Que Freud morreu declarando-se ateu às 3 horas da madrugada do dia 23 de setembro de 1939, ninguém tem dúvida. O mesmo não se pode dizer se interiormente ele tinha absoluta convicção da não-existência de uma Inteligência Superior. À semelhança de outros ateus, ele costumava citar o nome de Deus em suas cartas: “Eu passei nos meus exames com a ajuda de Deus”; “Se Deus quiser”; “A ciência parece demandar a existência de Deus”; “Pela graça de Deus” etc.
Além do mais, Freud fez questão de inaugurar a sua clínica particular especializada em neuropatologia na Páscoa de 1886, quando tinha 30 anos, a mesma idade com que Jesus Cristo iniciou o seu ministério (Lc 3,23). Essa escolha seria sinal de respeito por aquele dia de profundo significado religioso ou refletia desafio e desrespeito por Jesus?

QUANDO O ATEU ESQUECE QUE É ATEU

No início de setembro de 2005, na cidade de Franca, SP, um pai sofrido e de posição social modesta declarou à Folha de São Paulo: “Não creio mais em Deus. Mesmo assim, oro todas as noites pedindo que Deus devolva a vida de meu filho ou o leve embora de uma vez”.
Sigmund Freud cometeu o mesmo “cochilo” doutrinário, mais de uma vez.
Numa de suas cartas ao pastor Oskar Pfister, Freud chama o amigo de “caro homem de Deus” (4/10/1909).
O psiquiatra Armand M. Nicholi Jr. teve acesso às muitas cartas de Freud e achou nelas palavras e frases como: “o bom Senhor”; entregar ao Senhor”; pôr na mão do Senhor”; “até depois da ressurreição”; “o julgamento divino”; “a vontade de deus”; “Deus altíssimo”; “se algum dia nos encontrarmos nas alturas”; “no outro mundo”; “minha oração secreta” (Deus em Questão, p. 61).

Não é fácil ser ateu. As coisas se complicam quando surge um problema, como o que Freud confessa a Pfister na carta de 14 de dezembro de 1911: “Fiquei encalhado em diversas pocinhas no meu estudo da psicogênese da religião e com as poucas forças que tenho atualmente não posso desencalhar” (Cartas entre Freud e Pfister, p. 73).

 __________

1Deus em Questão p. 24.
2Idem, p. 47
3Idem, p. 218.
4Idem, p. 222.
5Idem, p. 26.
6Cartas entre Freud e Pfister: Viçosa, MG: Editora Ultimato, 1998.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ateísmo e Ciência? - Preconceitos contra a fé cristã e Conclusão

3.2. Preconceitos contra a fé cristã


Numa atitude antintelectualista, muitos se fecham em preconceitos contra a fé; deixam-se guiar não pela razão, mas por sentimentos, “opções” ou displicência. Julgando que a análise objetiva e racional do fato religioso é impossível ou não merece ser feita, assumem atitudes arbitrárias, que tais pensadores não saberiam justificar aos seus próprios olhos.

É certo que, da parte das pessoas de fé – digamos: ... dos cristãos -, tem havido motivo para certa aversão à fé; assim as falsas interpretações da Bíblia, a piedade adocicada ou sentimental, os contra-testemunhos decorrentes da fragilidade humana... Muitos confundem o Cristianismo com aberrações teóricas ou práticas que são apresentadas ao público; julgam que, para ser cristão, é preciso renunciar à inteligência ou à cultura. Grande número desses pensadores que se dizem ateus, na verdade não desdizem à fé no verdadeiro Deus (que eles não conhecem), mas rejeitam as distorções da autêntica noção de Deus.

Tal situação requer, do lado dos cristãos, uma revisão do testemunho que dão ao mundo a fim de o expurgar de deformações e, do lado dos ditos “ateus”, o uso da razão, a fim de que possam ter conceito mais claro da mensagem da fé e saibam distinguir do acidental o essencial ou das facetas contingentes a verdade perene professada pela fé.

4. Conclusão

Ao invés do que muitos pensam, a mensagem cristã se prende estritamente ao uso da razão e ao estudo das ciências experimentais. É preciso banir a suspeita de divórcio entre aquela e estas. Verdade é que o estudo não prova a verdade intrínseca das proposições de fé, mas serve para alicerçar a crença. A onda de antintelectualismo vigente nos últimos decênios prejudica a vida cristã; esta se torna, em consequência, algo de subjetivo, sentimental, inconsistente e sujeito a perder sua identidade. As proposições de fé se dirigem à inteligência humana e não apenas ao coração. – A inteligência foi dada por Deus ao homem para que este não somente descubra as verdades acerca do mundo contingente e material, mas também chegue ao conhecimento de Deus como Princípio e Fim de todas as coisas.

Especialmente os resultados das ciências naturais – e da própria astronomia – interessam grandemente aos cristãos. A Bíblia não ensina proposições de ordem científica sobre a constituição e a origem do mundo e do homem; a sua doutrina é de índole sapiencial ou teológica, de modo que nunca se poderá dizer que há antagonismo entre a mensagem bíblica e as ciências naturais.

A propósito muito nos valemos do estudo de Claude Tresmontant: L’Ateismo in questa fine del ventesimo secolo dal punto di vista scientifico e razionale, publicado na coletânea L’Ateismo: natura e cause, pp. 127-155. Milano 1981.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Ateísmo e Ciência? - Por que há tanto ateísmo hoje?



3. Por que há tanto ateísmo hoje?

Apontaremos duas grandes causas de tal fenômeno.

3.1. Preconceito contra a Metafísica

A Metafísica é a reflexão que se estende para além das coisas físicas ou naturais: é o estudo que procura não somente as causas próximas, mas as causas remotas ou as causas das causas, e assim vai penetrando dentro do recôndito do que é ou do Ser; atinge o Invisível através do visível. Se, por exemplo, vejo um raio, sinto a necessidade de explicá-lo; pesquisando cientificamente, chego à conclusão de que é o efeito de um choque elétrico; mas minha mente pode não se dar por totalmente satisfeita com esta resposta e, por conseguinte, indago ulteriormente: donde vem a eletricidade?... Por que existe ela? Quem lhe deu a existência? Assim aos poucos vou cultivando a metafísica (meta = além; physiká = as coisas naturais).

A Metafísica foi muito estimada pelos pensadores até a época moderna. Immanuel (+ 1804) quis dar-lhe um golpe mortal, afirmando que só conhecemos fenômenos sem poder penetrar nas suas causas; não atingimos a realidade em si mesma ou como tal. Augusto Comte (+ 1857) tomou posição semelhante, recusando todo conhecimento que ultrapasse o das ciências empíricas, Friederich Nietzsche (+1900), Sigmund Freud (+1939) e seus discípulos também proclamaram a morte da Metafísica. – Tal negativa influenciou não somente os materialistas, mas também os cristãos; vários destes, embora reconheçam a existência de Deus e dos valores transcendentais, julgam que estes não podem ser atingidos pela razão, mas unicamente pela fé. A crença em Deus e nas verdades religiosas seria algo alheio ao setor da razão; seria uma espécie de convicção que não se poderia justificar ou explicar racionalmente. Assim há pensadores cristãos que são Kantianos e nos dizem que a análise metafísica do mundo e da natureza é impossível; a afirmação da existência de Deus nada teria que ver com o estudo da natureza e do universo; não seria possível uma filosofia da natureza. Tais pensamentos cristãos se encontram assim com os marxistas e os freudianos, e esse encontro é geralmente fatal para eles, isto é, implica muitas vezes a perda mesma da crença em Deus. Com efeito: sem fundamento na lógica e nas categorias da razão, qualquer opção é meramente subjetiva e arbitrária, carente de solidez e incapaz de se transmitir de maneira convincente.

A recusa da filosofia da natureza leva ao velho materialismo do século passado¹, o qual afirmava que, destruído o cérebro, se destrói a consciência humana e se tem a morte absoluta, ou ainda... que a destruição do corpo humano é a destruição da própria pessoa.

Na verdade, o que é impossível é destruir a Metafísica ou não cultivar a Metafísica. Com efeito; já Aristóteles (+ 322 a.C.) dizia: “Se é preciso filosofar, filosofemos. Se não é preciso filosofar, filosofemos ainda para provar que não é preciso filosofar”. O que significa: negar a Metafísica ainda é fazer Metafísica. Negar a finalidade do universo ou negar Deus é afirmar que o mundo é regido por mecanismos e, em última análise, pelo acaso. Ora quem postula tais mecanismos, de certo modo está praticando a Metafísica ou está admitindo algo que a ciência não prova. Quanto ao recurso ao acaso, é a capitulação da razão; o acaso é o nome “ilustrado” ou “bonito” que o homem dá à sua ignorância, pois não existe acaso como sujeito ou não existe o “Sr. Acaso”; este é apenas o cruzamento, para nós imprevisto, de causas que têm sua finalidade e sua razão de ser bem especificadas (pelo fato de não termos previsto que essas causas se encontrariam, surpreendemo-nos e dizemos que isto se deu por acaso).

A seguir: Preconceitos contra a fé cristã e Conclusão
___________

¹ Século XIX – Este texto é escrito em 1987

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ateísmo e Ciência? - No século XX: divórcio entre ciência e ideologia

2.2. No século XX: divórcio entre ciência e ideologia 



A cosmologia contemporânea, estudada sem preconceitos, não se concilia com o ateísmo. Com outras palavras: o ateísmo, do ponto de vista científico, é inconcebível ou impensável. Ele só pode ser professado e proclamado nas escolas e nas Universidades por quem não queira levar em conta as conclusões das ciências cósmicas modernas. Por isto nota-se que famosos pensadores ateus do nosso século nutriram desprezo pelas ciências naturais.


Com efeito. Tal foi o caso de Jean-Paul Sartre, que pretendia ignorar as ciências experimentais e desdenhava a pesquisa das realidades físicas e biológicas. Martin Heidegger, existencialista, também menosprezava os estudos experimentais. Diga-se o mesmo a propósito de Albert Camus (1913-1960), para quem o mundo é absurdo.

Entre os filósofos marxistas da Cortina de Ferro, que naturalmente professam o ateísmo, instaurou-se uma crise quando os cientistas ou físicos quiseram desenvolver as consequências da lei da entropia. Esta contradizia às premissas do ateísmo, que, para subsistir, tem de admitir a eternidade da matéria ou, ao menos, deve ignorar as conclusões das ciências físicas contemporâneas. Foi optando por esta alternativa que muitos resolveram o problema na Rússia, na Polônia, na Romênia (na França também...); julgam que é impossível uma Filosofia da Natureza ou uma filosofia das ciências experimentais e a ontologia marxista; para eles, o marxismo se reduz a uma filosofia da história, ao passo que para Marx, Engels e Lenin ainda era uma filosofia da natureza ou uma ontologia, que admite o universo envolvido num processo cíclico, para o qual não havia necessidade de procurar explicação da causa remota, pois o universo se explicaria por si mesmo. – Aliás, é interessante notar que tanto Engels como Nietzsche e Heidegger se referem frequentemente aos mais antigos filósofos gregos (Heráclito, Parmênides, Xenófanes, Anaximandro); outros ateus se apóiam em Demócrito e Leucipo, atomistas gregos, todos eles falhos no tocante à investigação científica, mas tidos como válidos para eliminar o conceito de um Deus distinto do mundo e Criador deste. Também a filosofia panteísta dos estóicos é evocada pelos autores ateus modernos, pois esta admite o Logos (a Razão) imanente do universo, Logos que tornaria o universo inteligente a harmonioso sem o recurso a um Deus Criador; assim, mais uma vez, o universo com suas leis se explicaria por si mesmo.

Vê-se, pois, que o conflito fundamental entre o ateísmo moderno e o monoteísmo (que tem suas raízes no pensamento hebreu) vem a ser o confronto entre uma cosmologia que faz do universo um Absoluto, que não precisa de explicação ulterior, e uma filosofia que relativiza e dessacraliza o universo, reduzindo-o à categoria de mera criatura de um Ser Supremo distinto do mundo e do homem. Quem terá razão neste confronto? – A resposta só pode ser deduzida da observação da realidade objetiva, observação despojada de qualquer preconceito e guiada unicamente pela evidência das ciências experimentais. Ora quem segue este método, verifica com muita clareza que os antigos filósofos gregos e os seus discípulos modernos na tinham nem têm razão.

Resta agora perguntar: Por que há tanto ateísmo hoje? (a seguir)

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ateísmo e Ciência? Que diz o ateísmo a propósito? Continuação...



Enunciaremos duas posições do ateísmo frente às ciências cosmológicas.


2.1. Os antigos gregos e o século XIX


Na sua carência de conhecimento de astronomia, os antigos pensadores gregos (os pré-socráticos, Platão, Aristóteles, Plotino e outros...) afirmavam que o universo é divino; os astros seriam substâncias divina, isentas de evolução, de história, de envelhecimento; o universo não teria início nem fim, mas seria o Ser Absoluto.

Esta posição é insustentável aos olhos da ciência moderna. Não obstante, no século XIX era defendida por pensadores como Marx e Engels. Este, por exemplo, restaurou a concepção dos antigos gregos; o universo estaria em movimento cíclico eterno; o universo seria o Ser Absoluto, para o qual não se deve procurar começo nem fim nem envelhecimento. O princípio de Carnot-Clausius, que estabelece a entropia ou a degradação da energia, foi ignorado conscientemente por Engels. Friederich Nietzsche (+ 1900 fez o mesmo: retornou o tema mitológico do eterno retorno, difundido não só na civilização grega, mas em outras culturas antigas; em nome desse mito, rejeitou com horror a ideia de um universo cuja história fosse linear, progressiva e irreversível; aliás, para Nietzsche, o universo é um caos destituído de toda forma. Augusto Comte (+ 1857), outro ateu do século XIX, proibiu aos seus discípulos o estudo da análise do espectro, mediante o qual se pode perceber a composição física e química das estrelas.

Como se vê, o problema para os pensadores ateus do século XIX era o de integrar os dados das ciências experimentais na sua filosofia concebida abstratamente ou preconceituosamente. Em vez de reconhecer as conclusões filosóficas a que levavam as pesquisas cosmológicas, distanciaram-se destas, proclamaram o ateísmo pré-concebido como dogma ou como a única filosófica científica possível. O ateísmo foi, sim, o dogma do século XIX.

A seguir 2.2. No século XX: divórcio entre ciência e ideologia

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ateísmo e Ciência? - A revolução cosmológica moderna... continuação

1. A revolução cosmológica moderna




Em meados do século XX descortinou-se aos cientistas uma visão do universo assaz diferente da que as gerações passadas tinham concebido: os contemporâneos tomaram consciência de que o universo é um sistema que tem sua evolução, sua história e, por conseguinte, também está em constante regime de envelhecimento.


Os antigos gregos imaginavam o mundo como algo que não tivera início nem teria fim, algo sem evolução nem desgaste; seria divino e incriado. A escola de Parmênides (séc. VI/V a.C.) concebia esse algo divino como estático, fixo, ao passo que Heráclito de Éfeso (576-480 a.C.) o entendia como algo sujeito a constantes pulsações do uno ao múltiplo e do múltiplo ao uno ou algo sujeito ao eterno e monótono retorno. – Também sabemos que, para os antigos, o universo se reduzia ao nosso sistema solar; ao contrário, hoje se afirma que o universo é um “gás de galáxias”, um gás do qual cada molécula é uma galáxia. ¹ A nossa galáxia compreende cerca de cem bilhões de estrelas; o nosso sol é uma destas. Este gás que invade novos espaços e se dilata; ao mesmo tempo se desgasta e envelhece, conforme o segundo princípio da termodinâmica ou a lei da entropia (ou da degradação) formulada por Carnot (1832) e Clausiu (+ 1888). – Esta lei ensina que a energia motriz ou dinâmica se converte em calor (ou energia térmica), mas o calor não se converte de novo em movimento. Em consequência, o universo posto em expansão tende a se estagnar ou estabilizar.


Entropia é palavra grega que significa involução; é o contrário da evolução. A evolução cósmica, física e biológica é o crescimento irreversível e acelerado da informação (ou das estruturas moleculares) da matéria inanimada e da vida. Ora a entropia é a tendência natural de todas as estruturas físicas, químicas e bioquímicas a voltar atrás se não recebem novas informações; decompõem-se e desfazem-se quando não re-alimentadas. – Numa palavra, todos os seres materiais estão sujeitos a esta lei.


Mais precisamente vejamos como se dá a evolução da matéria, que constitui o universo.

1.1. A formação da matéria


A matéria não é uma realidade isenta de origem e composição, como julgavam os atomistas gregos Demócrito (460-370 a. C.) e Leucípo (séc. V a.C.), mas conhece etapas de formação.

1) Recuando até os primórdios do universo, podemos dizer que a matéria se reduzia à sua forma mais simples ou a partículas: destas as mais numerosas eram os eletrônicos e suas antíteses, os positrônios; havia também partículas sem massa, como os fotônios, os neutrinos e os antineutrinos.

2) A partir de tais partículas, formou-se o primeiro átomo, o mais simples, que é o de hidrogênio. Depois deste, formou-se o de hélio.

3) A seguir, formaram-se as estrelas, que são massas de hidrogênio, que se transforma lenta, mas irreversivelmente, em hélio. No interior das estrelas é que se formam os núcleos mais pesados ou os elementos de composição mais complexa.

4) A formação dos elementos químicos, não é indefinida; ela produz uma centena de átomos, e pára. Segue-se a formação de moléculas, que resultam da estruturação de átomos em equilíbrio. As moléculas, por sua vez, se compõem e associam entre si nas chamadas “macro-moléculas”. Estas também se combinam umas com as outras, de modo a dar as “moléculas-gigantes”.

5) As moléculas-gigantes, que apareceram na face da Terra há cerca de três bilhões e meio de anos, são mensagens genéticas; são telegramas ou informações que governam a construção dos corpos vivos, desde os mais simples até os mais complexos. A estrutura desses seres vivos está inscrita em tais moléculas.

6) Mas também a evolução das moléculas não é indefinida. Ela se encerra como a formação de cinco moléculas-gigantes fundamentais: a adenina, a guanina, a timina, a citosina e a uracil. As quatro primeiras se combinam três em três. Estas cinco moléculas servem para se escreverem todas as mensagens genéticas (ou estruturas básicas) do ser vivo, desde os monocelulares até o homem (que é relativamente muito recente sobre a face da Terra). Formam enormes cadeias arquitetônicas, das quais resultam as proteínas, com seus vinte aminoácidos fundamentais.

7) Depois da evolução dos átomos e das moléculas, começa a evolução dita “biológica”. Como as evoluções anteriores, também a biológica não é indefinida; termina na formação de alguns sistemas biológicos principais – o que vem comprovado pelo fato de que há milhões de anos não se vê o surto de novos grupos zoológicos, nem se poderia indicar a partir de que tronco se daria hoje a evolução dos viventes.

Vê-se, pois, que o universo é um sistema em evolução irreversível, dirigida para composições sempre mais complexas e também ... mais imprevidentes; de fato, quem examina o universo em alguma das fases de sua evolução, não tem dados para predizer o futuro dessa evolução; o passado é sempre mais pobre do que o futuro dentro dos quinze bilhões de anos que conhecemos de sua história.

8) Voltemos a considerar os elementos mais simples que compõem a matéria. Cada estrela é uma massa de hidrogênio, que se transforma lenta, mas irreversivelmente em hélio. Quando esta transformação está totalmente realizada ou acabada, a estrela torna-se estrela morta, uma anã branca, constituída por “matéria degenerada”.

9) Disto se segue que nenhuma estrela – nem o nosso sol – pode ser eterna. Não são compatíveis entre si o conceito de evolução e o de eternidade, pois evolução diz “começo e transformação”, ao passo que a eternidade é a negação de começo e transformação. Sendo, pois, comprovada a evolução do universo, fica comprovado também que ele teve começo. Nenhuma galáxia é eterna, nem o conjunto das galáxias é eterno, pois todas se acham em evolução. Em vez de falar de eternidade do sol ou do universo (como faziam os antigos), a ciência contemporânea assinala as datas aproximadas de origem das estrelas e das galáxias.

Uma vez esboçadas estas linhas de cosmologia contemporânea, procuremos ver como se comporta o ateísmo diante das conclusões da ciência

A seguir: Que diz o ateísmo a propósito?
- Duas posiçoes do ateísmo frente às ciências cosmológicas...

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
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¹ Galáxia é a maior aglomeração de matéria que conheçamos; contém gás, estrelas, poeira e planetas. As galáxias começam a existir como imensas nuvens de gás, cuja condenação produz as estrelas.

Ateísmo e Ciência? - A revolução cosmológica moderna...

1. A revolução cosmológica moderna

Em meados do século XX descortinou-se aos cientistas uma visão do universo assaz diferente da que as gerações passadas tinham concebido: os contemporâneos tomaram consciência de que o universo é um sistema que tem sua evolução, sua história e, por conseguinte, também está em constante regime de envelhecimento.

Os antigos gregos imaginavam o mundo como algo que não tivera início nem teria fim, algo sem evolução nem desgaste; seria divino e incriado. A escola de Parmênides (séc. VI/V a.C.) concebia esse algo divino como estático, fixo, ao passo que Heráclito de Éfeso (576-480 a.C.) o entendia como algo sujeito a constantes pulsações do uno ao múltiplo e do múltiplo ao uno ou algo sujeito ao eterno e monótono retorno. – Também sabemos que, para os antigos, o universo se reduzia ao nosso sistema solar; ao contrário, hoje se afirma que o universo é um “gás de galáxias”, um gás do qual cada molécula é uma galáxia. ¹ A nossa galáxia compreende cerca de cem bilhões de estrelas; o nosso sol é uma destas. Este gás que invade novos espaços e se dilata; ao mesmo tempo se desgasta e envelhece, conforme o segundo princípio da termodinâmica ou a lei da entropia (ou da degradação) formulada por Carnot (1832) e Clausiu (+ 1888). – Esta lei ensina que a energia motriz ou dinâmica se converte em calor (ou energia térmica), mas o calor não se converte de novo em movimento. Em consequência, o universo posto em expansão tende a se estagnar ou estabilizar.

Entropia é palavra grega que significa involução; é o contrário da evolução. A evolução cósmica, física e biológica é o crescimento irreversível e acelerado da informação (ou das estruturas moleculares) da matéria inanimada e da vida. Ora a entropia é a tendência natural de todas as estruturas físicas, químicas e bioquímicas a voltar atrás se não recebem novas informações; decompõem-se e desfazem-se quando não re-alimentadas. – Numa palavra, todos os seres materiais estão sujeitos a esta lei.

Mais precisamente vejamos como se dá a evolução da matéria, que constitui o universo.

Continua...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ateísmo e Ciência?



Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Em abril de 1987, Dom Estêvão Bettencourt tratou do assunto sempre tão atual. O assunto será postado por partes.
Ao invés do que muitos pensam, a mensagem cristã se prende estritamente ao uso da razão e ao estudo das ciências experimentais. É preciso banir a suspeita de divórcio entre aquela e estas. Verdade é que o estudo não prova a verdade intrínseca das proposições de fé, mas ser vê para alicerçar a crença. A onda de aintintelectualismo vigente nos últimos decênios prejudica a vida cristã: esta se torna, em consequência, algo de subjetivo, sentimental, inconsciente e sujeito a perder sua identidade. As proposições de fé se dirigem à inteligência humana e não apenas ao coração. – A inteligência foi dada por Deus ao homem para que este não só descubra as verdades acerca do mundo contingente e material, mas também chegue ao conhecimento de Deus como Princípio e Fim de todas as coisas.


Especialmente os resultados das ciências naturais – e da própria astronomia – interessam grandemente aos cristãos. A Bíblia não ensina proposições de ordem científica sobre a constituição e a origem do mundo e do homem; a sua doutrina é de índole sapiencial ou teológica, de modo que nunca se poderá dizer que há antagonismo entre a mensagem bíblica e as ciências naturais.


                                                                                       ***


Houve épocas em que se julgava haver total incompatibilidade entre a ciência e a fé; quem estudasse o mundo, não poderia crer em valores transcendentais. Em nossos dias, embora esta posição se vá dissipando, persiste a convicção, em muitos, de que a fé e a ciência, mesmo não sendo antagônicas, nada têm que ver uma com a outra; a fé seria uma posição assumida gratuita ou emotivamente pelo estudioso de ciências naturais. Ora esta cisão entre saber científico e saber religioso do homem desfigura um e outro e leva a conclusões muito errôneas. – Eis por que procuraremos examinar o problema com exatidão.

Eis os temas que serão abordados:


1. A revolução cosmológica moderna.
2. Que diz o ateísmo a propósito?
3. Por que há tanto ateísmo hoje?
4. Conclusão.


Revista Pergunte e Responderemos - Abril - 1987
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Atraído irresistivelmente pelo Senhor Deus,
o homem “ateu” de nossos dias cria suas místicas, seus “absolutos”,
seus deuses, suas superstição,
que inadequadamente lhe fazem as vezes do único Deus.
(desconheço autor)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Perguntas e respostas de um ateu... Perguntas 5 e 6...

5ª Pergunta


Nos momentos difíceis você recorre a quem?
- Depende do momento: se eu tiver com dor de dente, recorro a um dentista, se eu tiver com alguma doença, recorro a um médico, se o problema for de dinheiro, peço empréstimo a um amigo meu, na maioria dos outros problemas eu recorro ou à polícia ou a um advogado.

Comentário: Nos momentos difíceis o ateu recorre aos meios humanos que o possam tirar do embaraço. Esta solução pode, em alguns casos, ser suficiente, mas nunca será cabal a plenamente satisfatória. Sabiamente escrevia o filósofo francês Blaise Pascal (1662): “O homem foi feito para ultrapassar infinitamente a si mesmo”. Os anseios congênitos de todo homem à vida, à verdade, ao amor, à felicidade... são tão grandes que nenhuma criatura os pode saciar; só encontram resposta plena no Infinito ou em Deus. Daí a necessidade de se voltar para Deus na oração. Bem dizia S. Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Conf. I, 1).

6ª Pergunta

Por que existe o celibato a ser cumprido na igreja católica?
- Ele existe, para padre nenhum ter filhos, logo todas as riquezas que os padres possuem fiquem para a Igreja, quando ele morrer.

É fora de propósito a resposta acima. O celibato, tem sua origem nos escritos no Novo Testamento, especialmente em 1Cor 7,25-35. Com efeito; a vida uma ou indivisa é a resposta mais espontânea que o cristão possa dar ao anúncio de que já chegou o Reino de Deus; “o tempo se fez breve” diz o Apóstolo em 1Cor 7,29 ou não há como se dispersar atendendo a um lar e simultaneamente ao Reino de Deus. Quem tem o carisma, abstenha-se da dispersão para se concentrar no serviço ao Reino.

“Quem não é casado, preocupa-se com as coisas do Senhor, como possa agradar ao Senhor. Mas quem é casado, preocupa-se com as coisas do mundo, como passa agradar à esposa e fica divido” (1Cor 7,33).

Está claro, porém, que a vivência celibatária depende de especial carisma do Senhor. Quem sente vocação matrimonial, no casamento se santificará.

Não nos deteremos na análise de outras objeções do ateísmo à fé católica, pois o principal está dito nas páginas anteriores. Verifica-se que, aos olhos mesmos da razão, os argumentos ateus se mostraram insuficientes para abalar o senso religioso dos fieis cristão.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Perguntas e respostas de um ateu... Perguntas 3 e 4



3ª Pergunta

Para que serve a Religião?
- Uma das principais utilidades é a de manter o poder nas mãos dos ricos, conservando o povo resignado com o pouco que tem e o muito que lhe é roubado.
A Religião serve para manter as pessoas comuns quietas.

Comentário: Distingamos a autêntica Religião e as crendices, que são caricaturas da Religião.
A autêntica Religião é inspirada por um ato da inteligência que reconhece o Transcendental e o proclama. Muitos homens e mulheres de alto valor cultural aderiram e aderem à genuína Religião, exercendo crítica construtiva onde seja pertinente; entre eles assinalaram-se cientistas de renome internacional, como se pode ver em nosso Curso de Filosofia ,editado pela Escola “Mater Ecclesiae”.
A crendice, porém, deturpa o conceito de Religião. Não poucos governantes se aproveitam do fraco senso religioso de muitos crentes pra os dominar em nome da própria Religião; como alega nosso interlocutor ateu.
Em nossos dias pode-se mesmo dizer que a Religião tem sido o esteio (ou o pretenso esteio) para fomentar reivindicações em prol de uma sociedade mais justa e fraterna. Tenha-se em vista a Teologia da Libertação.

4ª Pergunta

Qual a diferença entre Religiões Cristãs, o Islamismo e a Umbanda?
- Não sei. Nada os diferencia.

Comentário: Na verdade, as crenças religiosas têm uma base comum, que é a lei natural, impressa no íntimo de todo ser humano: “Não matarás, Não roubarás, Não adulterarás...”. Em geral (com exceções, sem dúvida) são fatores educativos, que contribuem para preservar a ordem pública. Por cima desta base comum, cada Religião tem seu Credo e sua Moral próprios. Ora estes diferem radicalmente entre si:
- O Cristianismo é monoteísta, professando um só Deus, que se afirma três vezes, como Pai, como Filho e como Espírito Santo. Proclama Jesus Cristo como Salvador do mundo.
- O Islã é monoteísta, mas rejeita a Trindade em Deus. Admite a poligamia e a “guerra santa”.
- A Umbanda crê em Deus e em semideuses, que são os exus e orixás.
Por conseguinte não se podem nivelar as Religiões entre si. A lógica indica o monoteísmo como portador da verdade.

sábado, 19 de junho de 2010

Perguntas e respostas de um ateu

Em síntese: O artigo considera uma série de objeções que um ateu possa levantar contra a Religião, mostrando que são inconsistentes, pois baseadas em preconceitos e sofismas.

***

Via Internet PR recebeu um impresso intitulado “PERGUNTAS COM RESPOSTAS”, proveniente de um ateu. São o eco do que pensam não poucas pessoas, de modo que se torna oportuno mostrar o vazio de tais objeções. É o que se fará a seguir.
São 6 perguntas que postarei no Blog com escolhidas por Dom Estêvão, já que não se deteve em analisar outras objeções do ateísmo à fé católica, pois o principal ele se ateve em fazer comentários. Até porque, conclui ele, os argumentos ateus se mostraram insuficientes para abalar o senso religioso dos fieis cristãos.
1ª Pergunta

Como você prova que Deus existe?
- Deus é uma hipótese, e, como tal, depende de prova: o encargo da prova cabe ao teísta (Percy Bysshe Shelley).

Comentário: Existem significativas provas da existência de Deus, algumas de ordem metafísica, outras de origem moral. Dentre as de índole metafísica destacamos as cinco vias de S. Tomás, das quais vai a quinta abaixo exposta.

“Todo relógio tem um relojoeiro” (Voltaire)

Quem considera o universo, não pode deixar de nele verificar estupenda ordem de corpos sabiamente coordenados dentro de proporções “astronômicas”.

Tão maravilhosa ordem, tão segura tendência a um fim supõem exista uma inteligência que as tenha concebido e produzido.

Ora ordem significa a adaptação de diversos elementos entre si em vista de certa finalidade a ser obtida. Adaptação, por sua vez, supõe a intuição da índole íntima de cada um dos seres que hão de ser adaptados. Somente quem percebe o essencial de cada ser, pode utilizá-lo como meio de atingir determinado fim.

Pois bem; o Ser Inteligente que o raciocínio assim descobre, há de ser absoluto, ilimitado, incriado, pois a Ele se deve o plano do universo inteiro e de cada um de seus componentes. Essa causa total de ordem só pode ser o Autor dos seres existentes. Ele os tirou do nada e os criou. Chama-se Deus.

Por conseguinte a ordem do universo é a grande janela aberta para o Além, pela qual vemos passar a sombra de Deus: “Deus é o invisível evidente” (Victor Hugo).

A SEGUIR A 2ª PERGUNTA COM RESPOSTA E COMENTÁRIO.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dando continuidade a “A Igreja dos novos ateus”.


2. Que dizer?

Proporemos os quatro seguintes pontos:

2.1. Observações de ordem geral
Os novos ateus nada de novo propõem; as suas objeções levantadas contra a Religião já foram muitas vezes dissipadas em PR; ver PR 160/1973, p. 147; 502/2004, p. 160. Notemos apenas que o ateísmo é o resultado não de um raciocínio, mas sim de uma opção que a criatura faz por motivos diversos. Tal opção parece condizer muito pouco com a genuína índole do ser humano, visto que somente 2,5% a proferem. Na verdade não se pode provar que Deus não existe, ao passo que se prova que Ele existe.
2.2. Religião é um mal ou um bem?
A Religião bem entendida, enquanto é um “religar o homem com o Infinito e Absoluto”, é um bem; corresponde à sede que todo homem experimenta, de vida plena, de Verdade sem erro, de amor sem traição... Por isto todo ser humano traz em si uma religiosidade inata, que se exprime nos diversos. Credos da humanidade. Se houve guerras religiosas, estas se devem não aos imperativos da Religião, mas à interpretação que a esta foi dada no decorrer dos séculos. Quem condena a Religião por causa das distorções que os homens lhe infligiram, condenará também a ciência, pois ela ocasionou a fabricação da bomba atômica e de armas poderosas que ameaçam a humanidade.
Já se tem averiguado que as pessoas religiosas são mais longevas do que as não religiosas, pois levam uma vida mais confiante e esperançosa. Isto se entende bem mediante a comparação com a agulha magnética; esta é atraída pelo seu Norte e não descansa enquanto não repousa nele. Todo ser humano é como essa agulha; sente-se inquieto e agitado porque nada do que seus olhos contemplam lhe satisfaz. Somente quando se volta para a Transcendência, descansa e vive em paz. Ver PR 530/2006. P. 368.
Mesmo considerada do ponto de vista meramente humano, a Religião é um fator educacional de primeira grandeza; ela morigera ou ensina bons costumes.
2.3. A fé
Os primeiros seres humanos podem ter concebido a fé por medo e ignorância. Hoje, porém, existem grandes vultos da ciência e da cultura que professam um Credo; já não é por medo que o fazem, mas pela intuição do mistério...; este mundo, com sua harmonia e beleza, aponta para o Mistério de um Criador vislumbrado na penumbra da fé. São felizes aqueles que percebem a existência desse mistério, fonte de tudo o que é bom neste mundo.
Os capítulos 1-3 do Gênesis, que os ateus ridicularizam por causa de seus antropomorfismos, não hão de ser tomados ao pé da letra, como se depreende da comparação dos mesmos com textos na antiga literatura oriental; o que a fé ensina, é que a matéria não é eterna, mas foi criada por Deus, que lhe terá dado as leis da evolução, e que cria também os seres espirituais, pois estes não são produto de evolução. Supostas estas premissas, a fé não rejeita as teorias da ciência que tentam explicar a formação do mundo como hoje ele é:
Pesquisas genéticas recente revela que 98,5% do DNA humano é igual ao do chimpanzé”. Acontece, porém, que o corpo do homem, próximo ao do chimpanzé, e animado por um princípio vital essencialmente diverso do que vivifica o macaco: é espiritual e aberto para a Transcendência, e também imortal, ao passo que o princípio vital do macaco é material e mortal, limitado aos valores sensíveis apenas.
2.4. Um mundo sem Deus
Seria melhor do que com Deus? Não é de crer. Existe em todo ser humano uma tendência ao egoísmo o a fazer-se o centro de suas atenções. Tal tendência se manifestou frequentemente durante a história da humanidade. O egoísmo leva a litígios e quebra a solidariedade harmoniosa entre os indivíduos. Com outras palavras: após o pecado original dos primeiros pais, o ser humano é movido por tendências desregradas que o lançam na desgraça e que a Religião procura coibir.
Não adorar a Deus, mas admirar a beleza deste mundo é incoerência, pois toda a formosura do Makro e do mikrokosmos tem sua fonte na Beleza subsistente do Criador. Contemplar uma bela pintura é entrever a genialidade do respectivo pintor; assim também contemplar a beleza do criado é entrever a genialidade do respectivo Artífice.
No Código de Ética atéia do marxismo, não existe o preceito do amor ao próximo; o ser humano é comparado a uma peça de carvão que deve queimar-se na locomotiva da humanidade para que o conjunto vá adiante às custas do sacrifício dos seus componentes individuais.
Em suma, pode-se dizer que o mundo sem Religião careceria do grande referencial que dá sentido à luta do homem; degeneraria em caos, no qual se realiza o que os filósofos outrora já notavam: “Homo homini lúpus. O homem é lobo para o homem”. É a Religião (não a crendice nem a superstição) bem entendida que refreia as paixões desordenadas de seus seguidores.
3. Conclusão
O fenômeno do ateísmo militante interpela vivamente os cristãos. Com efeito, já se tem observado que uma das causas do ateísmo é o contra-testemunho dado por cristãos, que não vivem à altura de sua sublime vocação.
Ao tomar consciência do fenômeno, o cristão se examina procurando averiguar a sua parte de responsabilidade no surto do ateísmo contemporâneo. Seja este o fruto positivo da reflexão que a história de nossos tempos nos sugere.
PERGUNTAS E RESPOSTAS DE UM ATEU, EM BREVE...

A Igreja dos novos ateus...

Em Pergunte e Responderemos de fevereiro de 2007, Dom Estêvão fez a seguinte reflexão sobre uma matéria posta na revista Época: “A Igreja dos novos ateus”.

Eis o artigo que Dom Estêvão tão bem aborda:

Em síntese: O ateísmo se propaga com a intenção de destruir a fé em Deus. Explica a origem do mundo pelo acaso e a origem da fé pelo medo do homem primitivo. O mundo sem religião seria um mundo de paz e melhores condições de vida do que o mundo orientado pela religião.

Tais alegações são falsas, pois o acaso não explica a harmonia e a grandiosidade do universo; a fé existe mesmo nos homens mais ilustrados da história; a ciência é incapaz de satisfazer a todas as aspirações congênitas do ser humano. A religião é um fator morigerador e moderador dos afetos humanos, verdade é que em nome da religião foi declarada guerra de povos a povos irmãos; isto, porém, não é devido à índole mesma da religião, mas à interpretação que lhe deram (ou não) os religiosos de determinada época.

* * *

A revista ÉPOCA, edição de 13/11/06, publicou uma reportagem intitulada “A Igreja dos novos ateus”, que apresenta facetas do ateísmo contemporâneo merecedores de consideração. Eis por que lhe serão dedicadas as páginas seguintes.

1. O Problema

O ateísmo parece querer desencadear nova ofensiva contra a religião, a fim de a extinguir da face da terra; não se contenta com o indiferentismo ou o agnosticismo, mas vai à guerra anti-religiosa. Segundo o instituto Gallup, em 2005 cerca de 2,5% da população mundial se declara atéia.

Três filósofos

Os expoentes dessa tendência são Danien Dennett, do qual será lançado no Brasil o livro “Quebrando o Desencanto”, Richard Dawkins, zoólogo britânico, que publicou a obra “The God Delusion” (A ilusão de Deus), arauto do evolucionismo, e Sam Harris, neurologista. Segundo a Associação Americana dos Livreiros, em 2005, as obras que se enquadram na categoria ‘céticos e ateus’ registram rápido desenvolvimento. A Sociedade dos Céticos publica uma revista mensal com a quinta maior tiragem entre as publicações especializadas nos Estados Unidos.

Segundo os neo-ateus, as pesquisas sobre a origem do universo incluindo o “big-bang” (a grande explosão inicial) não deixam lugar para um Deus Criador. O mundo se originou por acaso; nem todo efeito tem causa, dizem; um elétron pode mudar de lugar um átomo, sem intencionalidade divina. Com estes dados os ateus pretendem opor-se à Bíblia, que, para os crentes, ensina a criação do mundo em seis dias e o surto do gênero humano a partir de Adão e Eva. A religião impede o progresso da ciência, pois os crentes acusam os cientistas de brincar de Deus.

São citados alguns cientistas que de declararam ateus, como Charles Darwin (1809-1882): “Fui tomado lentamente pela descrença, que acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não senti nenhuma aflição. Aliás mal consigo entender como alguém possa desejar que o cristianismo seja verdadeiro”.

Carl Sagan: (1934-1996): “Não é possível converter um crente de coisa alguma. Suas crenças não se baseiam em evidencias, mas na profunda necessidade de acreditar. É melhor compreender o universo como ele é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranqüilizador que seja”.

Não são levadas em conta as vozes de cientistas profundamente impregnados de fé. Cf. PR 393/1995, p. 57.

E como seria o mundo sem religião?
- Em tal caso, dizem, não haverá guerras de religião nem terrorismo, nem cruzadas. A fé faz mais mal que bem.

Um mundo sem fé não seria carente de Ética. A espiritualidade não está necessariamente ligada à religião. Em vez da adoração a Deus, haveria a admiração pelo mundo natural, pelas coisas belas que o mesmo revela à razão e ao sentido do ser humano. Com outras palavras: haveria o naturalismo. Grag Grafin, zoólogo da Universidade Comell (U.S.A.), fundador da banda punk Bad Religion, afirma: “Existe apenas esta vida. Então dê beleza e sentido a ela”.

O físico Albert Einstein terá declarado:Sou um profundo religioso não crente... O que vejo na natureza, é uma estrutura magnífica que podemos compreender apenas imperfeitamente. Isso deve encher a pessoa com uma sensação de humildade. Essa é uma emoção verdadeiramente religiosa, que nada tem a ver com misticismo”.

A SEGUIR... Em outra postagem, Dom Estêvão proporá 4 seguintes pontos.
Depois de ler tudo acima... Perguntamos agora...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Que profundo e delicado...

Perguntaram certa vez a um Cardeal:
Que diria V.Em.cia a um ateu que lhe afirmasse: ‘Eu sou ateu!?
A resposta do Cardeal:

“Eu o contemplaria profundamente nos olhos (como Jesus) e lhe diria: ‘Que maravilha! Tu, com o teu semblante iluminado pelo Espírito, com os teus olhos em que se lê uma individualidade imortal, com todo o teu corpo, obra-prima da criação, tu, com aquilo que és, tu és a prova mais estupenda de uma evolução criadora do universo, que, logicamente, não pode ser orientada senão por uma inteligência amorosa, que os homens, há milênios, chamam Deus’. E, se ele me dissesse ainda: ‘Não creio em Deus’, eu lhe responderia: ‘Mas Deus crê em ti’ “.

Palavras ditas pelo Cardeal Paul Poupard, no ano de 1989 como Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não Crentes ao repórter Angelo Bertani, da revista JESUS (edição de maio de 1989, PP 74s).
Trecho tirado da entrevista da Revista Pergunte e Responderemos nº 329
Outubro de 1989 – pág. 465

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Desvantagens do Ateísmo...

Parece-nos que o homem feliz não colhe vantagem alguma em ser ateu. É-lhe tão agradável cismar que os seus dias se prolongarão além da vida! Com que desespero não deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabeça se acumulariam todos os bens do século, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode também contar com que a religião lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplicável ternura; não se lhe endurecerá o coração, o gozo, escolho inevitável das grandes prosperidades, não o infastiará; que a religião refrigera as sequidões da alma: é o que representa esse óleo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a infância, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: será ateu esse filho da glória? O que busca uma vida infinita consentirá em terminá-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumeráveis, antigas legiões da pátria! Famosas milícias de França, e agora milícias do céu, aparecei! Dizei aos heróis da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo não cai inteiro no túmulo, e que, após ele, permanece alguma coisa mais que um vão renome.

François René de Chateaubriand, in 'O Génio do Cristianismo'