"PORQUE ONDE ESTIVER O TEU TESOURO, ALI ESTARÁ O TEU CORAÇÃO". Mt 6,21
Mostrando postagens com marcador O Bem e o Mal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Bem e o Mal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um Deus-Amor: Então, por que tanto mal?


Pergunta

Grandiosas perspectivas, fascinantes, e que para as pessoas de fé são certamente novas confirmações de sua esperança.

No entanto, não podemos ignorar como em todos os séculos também os cristãos, na hora da provação, fizeram a si mesmos uma pergunta atormentada. Como se pode continuar confiando em Deus que seria Pai misericordioso, em um Deus que – como revela o Novo Testamento e como Sua Santidade, apaixonadamente repete – seria o próprio Amor, diante do sofrimento, da injustiça, da doença, da morte, que parecem dominar a história universal do mundo, e a pequenina, cotidiana história de cada um de nós?

Resposta

Stat crux dum volvitur orbis (A cruz permanece firme, enquanto o mundo gira). Como já afirmei antes, estamos justamente no centro da história da salvação. Você não poderia naturalmente esquecer aquilo que é fonte de dúvidas que sempre voltam de novo, não somente quanto à bondade de Deus, mas quanto à Sua própria existência. Como é que Deus permite tantas guerras, os campos de concentração e o holocausto?

O Deus que permite tudo isso é ainda verdadeiramente Amor, como o proclama São João na sua Primeira Carta? Será que Ele é justo para com Sua criação? Não coloca pesos demasiados sobre os ombros dos seres humanos? Não deixa o homem sozinho com esses pesos, condenando-o a uma vida sem esperança? Quantos doentes incuráveis nos hospitais, quantas crianças deficientes, quantas vidas humanas totalmente fora da geral felicidade humana aqui na Terra, da felicidade que provém do amor, do casamento, da família! Tudo isso junto cria um quadro sombrio, que encontra sua expressão na literatura antiga e moderna. Basta lembrar Fiodor Dostoievsky, Franz Kafka ou Albert Camus.

Deus criou o homem dotado de razão e liberdade e, por isso mesmo, submeteu-se ao juízo dele. A história da salvação é também a história do incessante juízo do homem sobre Deus. não simplesmente das perguntas e dúvidas, mas de um verdadeiro juízo no sentido pleno do termo. Em parte, o “veterotestamentário” Livro de Jó é o paradigma deste juízo. A isso vem somar-se a intervenção do espírito maligno, que com perspicácia maior ainda se acha disposto a julgar não só o homem, mas também a ação de Deus na história da humanidade. É o que o próprio Livro de Jó confirma.

Scandalum crucis, o escândalo da Cruz. Nas perguntas precedentes, você havia colocado em precisão o problema: era necessário para a salvação do homem que Deus entregasse o Filho à morte na Cruz?

Tomando com pano de fundo aquilo sobre o que refletimos até aqui, devemos perguntar-nos: poderia ter sido de outro modo? Poderia Deus, digamos assim justificar-se diante da história da humanidade, tão cheia de sofrimento, de outro modo senão pondo no centro dessa história justamente a Cruz de Cristo? Claro que uma resposta poderia ser: Deus não precisa justificar-se diante do homem. Basta que Ele seja onipotente. Nesta perspectiva, deve-se aceitar tudo o que Ele faz ou permite. Esta é a posição do Jó bíblico. 

Mas Deus que, além de ser Onipotência, é Sabedoria – vamos repeti-lo mais uma vez -, Amor, deseja, por assim dizendo, justificar-se diante da história da humanidade. Não é o Absoluto que está fora do mundo, e ao qual portanto é indiferente o sofrimento humano. É o Emanuel, o Deus-conosco, um Deus que compartilha a sorte do homem e participa de seu destino. Aqui vem à luz outra insuficiência, ou melhor, a falsidade da imagem de Deus que o Iluminismo aceitou sem objeções. Quanto ao Evangelho, constituiu certamente um passo atrás, não na direção de um melhor conhecimento de Deus e do mundo, mas no sentido de sua incompreensão.

Não, absolutamente não! Deus não é alguém que se acha apenas fora do mundo, contente em ser em Si mesmo o mais sábio, o onipotente. Sua sabedoria e onipotência se põem, por livre escolha, a serviço da criatura. Se na história humana está presente o sofrimento, compreende-se porque Sua onipotência se manifestou com a onipotência da humilhação mediante a Cruz. O escândalo da Cruz é para sempre a chave de interpretação do grande mistério do sofrimento, que pertence de modo quase orgânico à história da humanidade.

Nisto concordam até os críticos contemporâneos do Cristianismo. Eles também veem que o Cristo crucificado é uma prova da solidariedade de Deus com o homem sofredor. Deus fica ao lado do homem. E o faz de modo radical: “Aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, por solidariedade aos homens. E... humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, até a morte de cruz” (Fl 2,7-8). Tudo se encerra nisto: todos os sofrimentos individuais e os sofrimentos coletivos, os sofrimentos causados pelas forças naturais e os causados pela livre vontade humana, as guerras e o gulags, e os holocaustos: o holocausto judeu, mas também, por exemplo, o holocausto dos escravos negros da África.

Cruzando o Limiar da Esperança
Por Sua Santidade João Paulo II
Vittorio Messori

terça-feira, 12 de abril de 2011

O malvado oculta a maldade no seu coração porque pensa que sua culpa não será descoberta e punida (Sl 35,2).

sábado, 29 de maio de 2010

“Os maus não são bons porque os bons não são melhores”

Este título exprime uma grande verdade, que nunca se considerará demais.

Pergunta-se porém: os maus precisam dos bons para se converter? – Responderemos que a sua conversão depende da graça de Deus (que nunca lhes falta) e da sua fidelidade a essa graça. Mas Deus quer servir-se de instrumentos. E isto em dois planos: no meramente humano e no da fé.

No plano meramente humano... É notória a influência do exemplo ou do testemunho apregoado não só com palavras, mas também com gestos concretos. As palavras voam, mas os exemplos arrastam. O homem de hoje, em muitos casos, dá mais importância à sinceridade ou à coerência de vida do que à própria verdade. São tantas as “verdades” proclamadas por quem não as vivencia que muitos não lhes dão crédito. E há tantos erros traduzidos em atos concretos que arrastam multidões. Daí a importância de testemunho de vida em favor do Evangelho. Essa coerência, porém, exige coragem e brio... Coragem para que eu me adapte à Verdade e não queira adaptar a Verdade a mim, coragem para sair do meu pequeno mundo egoísta e pulsar com valores objetivos, que interessam aos meus semelhantes. Quantos têm sempre essa coragem?

No plano da fé... São Paulo nos diz que somos membros de um Corpo cuja Cabeça é Cristo e que nesse Corpo há mútuas interdependências:

“Como o corpo, sendo um, consta de muitos membros e os membros sendo muitos, formam o corpo, assim é Cristo... Não pode o olho dizer à mão: ‘Não preciso de ti’. Nem a cabeça aos pés: ‘Não preciso de vós’... Mais ainda: os membros do corpo considerados mais fracos são indispensáveis e, os que consideramos menos nobres, cercamos de maior honra” (1Cor 12,12-23).

Um membro doentio ou anêmico transmite menos vitalidade do que outro plenamente sadio. Por isto se diz com razão que Deus quer salvar a uns mediante outros. Cristo quer comunicar sua ação redentora aos membros do seu Corpo Místico, para que, de um modo ou de outro, colaborem (por graça de Deus) na mais importante de todas as obras, que é a santificação e a salvação dos homens. A consciência desta verdade desperta em todo cristão o elevado senso de responsabilidade que lhe toca.

Aliás, os documentos mais recentes da Igreja têm observado que o ateísmo se propaga no mundo de hoje porque nem sempre é lúcido o testemunho que os fieis cristãos deveram dar à Verdade. A decepção causada por não poucos afugenta os indecisos. A natureza humana tende a acomodar-se e cair na mornura de vida. Diz-se em latim “Quotidiana vilescunt. – A realidade repetida cada dia vai perdendo o seu significado”. Donde a importância de sacudir o véu da rotina, de modo que “os homens, vendo nossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

Sabiamente disse Jesus: “Vós sois o sal da terra”. E acrescentou: “Se o sal perder o seu sabor, não haverá quem o substitua” (Mt 5,13).

O bom cristão jamais poderá esquecer a nobre função que o Senhor assim lhe confiou.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Revista Pergunte e Responderemos - outubro 2006

sábado, 15 de maio de 2010

Será que o mal existe?

(Anônimo)

Um professor universitário desafiou seus alunos com esta pergunta:
 - Deus criou tudo o que existe?
Um aluno respondeu valentemente:
- Sim, Ele fez!
- Deus criou tudo? – Perguntou novamente o professor.
- Sim senhor – Respondeu o jovem.
O professor respondeu:
- Se Deus criou tudo, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e, partindo do princípio de que nossas obras são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mau.
O jovem ficou calado diante de tal resposta e o professor, feliz, regozijava-se de ter provado mais uma vez que a fé era um mito.
Outro estudante levantou a mão e disse:
- Posso fazer uma pergunta, professor?
- Lógico – Foi a resposta do professor:
- Professor, o frio existe?
- Que pergunta é essa? Lógico que existe, ou por acaso você nunca sentiu frio?
O rapaz respondeu:
- De fato, senhor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é a ausência de calor. Todo corpo ou objeto é suscetível de estudo quando possui ou transmite energia: o calor é o que faz que este corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Nós criamos essa definição para descrever como nos sentimos se não temos calor.
- E existe a escuridão?Perguntou novamente o aluno.
- ExisteRespondeu o professor.
O estudante respondeu:
- Novamente comete um erro, senhor, a escuridão também não existe. A escuridão na realidade é a ausência da luz. A luz pode-se estudar, a escuridão não; até existe o prisma de Nichols para decompor a luz branca nas várias cores de que está composta, com suas diferentes longitudes de ondas. A escuridão não. Um simples raio de luz atravessa as trevas e ilumina a superfície onde termina o raio de luz. Como pode saber quão escuro está um espaço determinado? Com base na quantidade de luz presente nesse espaço, não é assim? Escuridão é uma definição que o homem desenvolveu para descrever o que acontece quando não há luz presente.
Finalmente, o jovem perguntou ao professor:
- Senhor, o mal existe?
O professor respondeu:
- Claro que sim, lógico que existe, como disse desde o começo; vemos estupros, crimes e violência no mundo todo, essas coisas são do mal.
Ao que o estudante respondeu:
- O mal não existe, senhor, pelo menos não existe por si mesmo. O mal é simplesmente a ausência de Deus, é o mesmo dos casos anteriores, o mal é uma definição que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a fé ou como o amor, que existem como existem o calor e a luz. O mal é o resultado da humanidade não ter Deus presente em seus corações. É como acontece com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz.
Então o professor, depois de balançar a cabeça, ficou calado...

Nota da Redação da Revista Pergunte e Responderemos – dezembro 2006 n. 534:

O mal existe como lacuna; existem lacunas nas coisas boas. O mal não existe como algo que por sua própria essência seja mau. Tudo o que existe é bom; muitas vezes, porém, carece da reta finalidade ao agir. Assim o bombeiro e o ladrão são inteligentes, corajosos, enérgicos, mas aplicam seus talentos a finalidades diversas: o primeiro, a salvar vidas; o segundo, a destruir os bens alheios.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Os Tempos São Maus"

Dom Estêvão Bettencourt

Num de seus sermões, S. Agostinho referia-se a um chavão do linguajar de sua gente: “Os tempos são maus e ingratos! Outrora eram melhores!” Os cristãos o diziam no século V, apavorados pelas invasões dos bárbaros, que ameaçavam Roma e o Norte da África, onde Agostinho vivia. O mestre lhes respondia: “Os tempos somos nós! Nós é que fazemos os tempos!”.

E, aludindo explicitamente à cidade de Roma periclitante sob os golpes dos godos em 410, exclamava: “Roma não são pedras e muralhas. Estas foram construídas de tal modo que um dia, cedo ou tarde, haveriam de desmoronar... Roma são os romanos... Roma não perecerá se os romanos não perecerem!” (Sermão 81,9).

Em ambos os casos, o S. Doutor quer dizer que o homem tem uma grandeza interior mais pujante do que o desenrolar dos tempos e o curso das pedras; o homem é chamado pelo Criador a fazer a história, e não se deve julgar condenado a capitular porque os tempos são ingratos ou certos valores materiais se perdem. O homem é que dá aos tempos os adjetivos que lhes queira dar.

O mesmo Santo ainda dizia: “Semeia o bem, e colherás o bem. Não esperes que os outros comecem. Toma a iniciativa, faze a tua parte, e verás que o bem brotará em torno de ti”. Este programa já fora insinuado pelo Apóstolo (“Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem!”, Rm 12,21) e ressoaria nas palavras de São João da Cruz (+1591): “Onde não há amor, põe amor e colherás amor”.

De certo modo, o homem contemporâneo pode “consolar-se” por verificar que a queixa referente à ingratidão dos tempos já data do século V. Pode-se crer que seja tão antiga quanto o gênero humano.

O Cristianismo veio projetar nova luz sobre o problema. Os tempos não são regidos pelo mecanismo dos acontecimentos apenas, mas estão sob o domínio do Cristo Jesus, Rei dos séculos. Precisamente na vigília de Páscoa, quando em meio às trevas da noite se acende o Círio Pascal, exclama a Liturgia:

“Cristo ontem e hoje
Princípio e Fim
Alfa e Ômega.
A Ele o tempo e a eternidade,
A glória e o poder pelos séculos sem fim!
Amém”.

O cristão é portador da força vitoriosa de Cristo. Isto não significa que esteja isento de sofrer, mas, sim, que o próprio sofrimento traz em si o seu antídoto, pois foi transformado pelo Cristo em penhor de glória eterna. Não há, pois, como capitular, para o cristão; não há também por que repetir o chavão “Os tempos são maus”; antes, a inclemência dos tempos há de ser ocasião para que o cristão se lembre de que lhe toca uma grande tarefa a realizar com têmpera forte: Sede bons, e os tempos serão bons!”

Revista Pergunte e Responderemos - Abril 1991 - nº 347

segunda-feira, 8 de março de 2010

"Teu olho é mau porque eu sou bom?" - Mt 20,15



A parábola dos operários que trabalharam, uns menos, outros mais, e são pagos com a mesma moeda (Mt 20,1-16), surpreendente como é, põe o leitor diante do grandioso mistério de Deus. Com efeito; um dos operários da primeira hora protesta contra o patrão; ao que este responde: “Amigo, não cometo injustiça. Combinamos a paga de um dinheiro; ei-lo aí. Acontece, porém, que tenho muito dinheiro; é meu, e quero dá-lo gratuitamente. Ora, por ser eu gracioso e magnânimo, não entendes e te aborreces. Tu reclamas não porque eu seja menos santo do que tu, mas precisamente porque ultrapasso as tuas categorias de santidade; a gratuidade não é comum entre os homens, mas é meu típico modo de proceder”.
A parábola vale também para os tempos atuais. Há quem reclame de Deus, que permite haja tantas desgraças no mundo: guerras, enchentes, terremotos, crimes... “Se eu fosse Deus, o mundo seria diferente; não haveria os infortúnios que ora acontecem”.
O Senhor Deus lhe responderia: “Tu te irritas porque não me compreendes. E não me compreendes não porque eu seja inferior a ti, mas porque sou infinitamente mais sábio e santo que tu. Sou Deus e não um Grande Homem ou um Grande Banqueiro”.
Um Deus criticável ou menos sábio e santo do que o homem não é Deus: ou creio num Deus que é muito mais perfeito do que eu e, por isto, é, para mim, misterioso ou não creio em Deus, pois Ele é definido, pela razão humana mesma, como a Suma Perfeição.
Semelhantes ponderações nos são sugeridas pelo livro de Jó; este homem reto e temente a Deus é acometido de grave moléstia; os amigos o acusam de ser um grande pecador e merecer tal castigo. Jó replica, afirmando ter sido sempre fiel a Deus. Donde surge a questão: por que o justo sofre?
Não seria o sofrimento a punição do pecado? Diante do impasse Jó apela para Deus; ele é acusado injustamente; queira Deus explicar o enigma. Seria o Todo-poderoso um tirano que se compraz em martirizar os seus fieis, como chegou Jó a insinuar em Jó 10,1-22?
Em resposta o Senhor não apresenta algum porquê, mas vai apontando a grandeza e a beleza esparsas pelo universo: as constelações, a flora, a fauna (o rinoceronte, o hipopótamo, o leão, o íbis, o galo...) e pergunta a Jó: “Onde estavas quando criei isso tudo? Conta-me...”.
Jô então reconhece: “Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam... Por isto retrato-me e faço penitencia” (Jo 42,3.5).

A resposta dada a Jó dirige-se também ao homem de hoje: Deus vê muito mais longe do que o homem; Ele entende o que a criatura não entende. Em consequência deverá dizer-se: não compete ao homem criticar Deus, fazendo-se maior do que Ele, mas, sim, adorar os misteriosos desígnios do Criador, que, por definição, não pode falhar. Passe da fé infantil no “Deus Papa Bonachão” para a fé adulta, que, com Jesus, rejeita as perspectivas meramente humanas de um Reino de Deus na fartura, na isenção de acidentes e na hegemonia sobre os demais reinos (cf. Mt 4,1-11) a fim de abraçar o plano do Pai, que passa pela Cruz para chegar à glória celeste (cf. Hb 12.2-4).

O dia do juízo final revelará aos homens os caminhos da Providência Divina em meio às limitações das criaturas..

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Revista Pergunte e Responderemos – Setembro 2004 – nº 507

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

"Os maus não são bons porque os bons não são melhores"...

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Este título exprime uma grande verdade, que nunca se considerará demais. Pergunta-se porém: os maus precisam dos bons para se converter? – Responderemos que a sua conversão depende da graça de Deus (que nunca lhes falta) e da sua fidelidade a essa graça. Mas Deus quer servir-se de instrumentos. E isto em dois planos: no meramente humano e no da fé.

No plano meramente humano... É notória a influência do exemplo ou do testemunho apregoado não só com palavras, mas também com gestos concretos. As palavras voam, mas os exemplos arrastam. O homem de hoje, em muitos casos, dá mais importância à sinceridade ou à coerência de vida do que à própria verdade. São tantas as “verdades” proclamadas por quem não as vivencia que muitos não lhes dão crédito. E há tantos erros traduzidos em atos concretos que arrastam multidões. Daí a importância do testemunho de vida em favor do Evangelho. Essa coerência, porem, exige coragem e brio... Coragem para que eu me adapte à Verdade e não queira adaptar a Verdade a mim, coragem para sair do meu pequeno mundo egoísta e pulsar com valores objetivos, que interessam aos meus semelhantes. Quantos têm sempre essa coragem?
No plano da fé... São Paulo nos diz que somos membros de um Corpo cuja Cabeça é Cristo e que nesse Corpo há mútuas interdependências: “Como o corpo, sendo um, consta de muitos membros e os membros sendo muitos, formam o corpo, assim é Cristo... Não pode o olho dizer à mão: ‘Não preciso de ti’. Nem a cabeça aos pés: ‘Não preciso de vós’... Mais ainda: os membros do corpo considerados mais fracos são indispensáveis e, os que consideramos menos nobres, cercamos de maior honra” (Cor 12,12-23).
Um membro doentio ou anêmico transmite menos vitalidade do que outro plenamente sadio. Por isto se diz com razão que Deus quer salvar a uns mediante outros, Cristo quer comunicar sua ação redentora aos membros do seu Corpo Místico, para que, de um modo ou outro, colaborem (por graça de Deus) na mais importante d todas as obras, que é a santificação e a salvação dos homens. A consciência desta verdade desperta em todo cristão o elevado senso de responsabilidade que lhe toca. Aliás, os documentos mais recentes da Igreja têm observado que o ateísmo se propaga no mundo de hoje porque nem sempre é lúcido o testemunho que os fieis cristãos deveriam dar à Verdade. A decepção causada por não poucos afugenta os indecisos. A natureza humana tende a acomodar-se e cair na mornura de vida. Diz-se em latim “Quotidiana vilescunt. – A realidade repetida cada dia vai perdendo o seu significado”. Donde a importância de sacudir o véu da rotina, de modo que “os homens, vendo nossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus” (Mt 5,16).
Sabiamente disse Jesus: “Vós sois o sal da terra”. E acrescentou: “Se o sal perder o seu sabor, não haverá quem o substitua” (Mt 5,13).
O bom cristão jamais poderá esquecer a nobre função que o Senhor assim lhe confiou.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aprendei a fazer o bem...

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

O bem sempre triunfa. Esta é uma convicção ética testemunhada e cultivada pelo coração dos que apostam na bondade. Ela é que mantém e sustenta os justos e bons no caminho e na prática do bem. Até mesmo quando as provas e evidências não apontam nesta direção e nem justificam sua adoção. Mais difícil é nutrir esta convicção quando se contabiliza o crescimento do mal no mundo, os prejuízos que atingem frontalmente os pobres e indefesos. É triste verificar o mal praticado como hábito e como gosto prazeroso. É a morbidez da maldade como prazer tomando conta dos corações. Ainda mais triste é saber e conviver com tantos corações, disfarçados em rostos falsamente angélicos, que se alimentam de cálculos maliciosos e ardilosos para justificar e manter suas posições, vantagens e interesses. Esta aposta no bem desarma os impulsos do revide e invalida as lógicas da vingança. Vale, então, ecoar diuturnamente nos corações a força ética deste categórico convite: Aprendei a fazer o bem.
Esta é a prática pedagógica dos profetas tentando arrancar o seu povo do lamaçal de maldades. Bater nesta tecla é um mecanismo que configura horizontes de escolha e cria convicções. Trata-se mesmo de uma aprendizagem. Uma aprendizagem que deve se tornar exercício diário e contar com ambientes e dinâmicas de convivência que facilitem sua experiência. Aprende-se a fazer o bem fazendo o bem. Não é um simples ensino. É um processo de apropriação que se verifica na medida em que cada qual pratica o bem. É assim que pai e mãe edificam a matriz desta convicção ética no coração dos seus filhos. É na medida em que se apropria desta matriz e se cultiva sua dinâmica que o coração humano cresce na sedução por fazer o bem e se demove da tendência funesta da prática do mal. Não vale a pena colaborar no acervo destrutivo que mantém a vida pessoal e social refém da maldade e de tudo o que esvazia as próprias riquezas conquistadas e construídas pelo engenho da inteligência humana, e alimentadas pelo amor do coração.
O bem é uma questão de amor. O amor não é uma simples questão de gosto e de impulso. O amor é também, primordialmente, uma questão de fé. Por ser questão de fé é experiência. Sendo experiência se alavanca e se impulsiona pela força de princípios. Os princípios não são originários do si mesmo de cada um. Isto é, cada qual não é aquele que determina e se constitui em ponto de partida, na qualidade de princípio, para as práticas da vida. Esta é a direção que gera e multiplica as delinqüências e nutre deterioração dos vínculos, incapacitando para relacionamentos autênticos e transformadores. O princípio do amor é Deus. O evangelista João recorda que ‘Deus amou tanto o mundo que deu o seu filho unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna’ (Jo 3,16). Deus, portanto, é o princípio do amor. O amor de Deus é qualificado pelo gesto único da oferta do seu próprio filho, para além de toda lógica e expectativa, e pelo fato de amar primeiro. A qualificação do amor recebida de Deus, seu princípio primeiro e insubstituível, configura o amor verdadeiro como oferta permanente para salvar e redimir. Só ama de verdade quem compreende e emoldura todos os seus gestos e palavras na atitude corajosa de fazer ofertas para o bem.
Enquanto houver necessidades e carências o amor verdadeiro não se cansa de fazer ofertas. Esta qualificação do amor, advinda da qualidade completa do amor de Deus que se oferece, abriga também e particularmente a desafiadora característica de amar primeiro. Deus é quem ama primeiro. Em razão de amar primeiro, todo amor verdadeiro se prova pelo gesto de também amar primeiro. Este princípio jamais permitirá a vingança, o ódio ou o revide. Nada justificará qualquer atitude que venha em prejuízo do outro, porque Deus amou primeiro, e quem ama no amor de Deus sempre ama primeiro. A vivência deste princípio modulará o coração na capacidade de perdoar e de reconciliar-se, compreendendo a vida como cenário da prática e da vivência do bem. Jamais uma palavra, nem gestos que alimentem discórdias, guerras ou comprometimento da fraternidade universal.
O bem nasce e se mantém pela fidelidade ao princípio de amar primeiro e caracterizar o amor como oferta. Oferta de perdão para refazer vínculos; oferta de oportunidades para superar preconceitos e exclusões; oferta de bens, como partilha solidária, para vencer as carências que na ordem social revelam a inverdade do amor proclamado e cantado pelos corações. A prática do bem se torna a opção da vida. A opção de aproximar-se de Jesus Cristo, ‘a luz que veio ao mundo’. Não preferir esta luz e não praticar a adesão a ela é admitir as próprias ações como más.
“Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,20-21) Deus é amor.