"PORQUE ONDE ESTIVER O TEU TESOURO, ALI ESTARÁ O TEU CORAÇÃO". Mt 6,21

sexta-feira, 9 de março de 2012

O significado das procissões


O hábito de fazer procissões tem origem cristã? O que elas querem exprimir, de fato?

As procissões são manifestações da piedade crista baseadas na índole psicossomática d ser humano. Não somos apenas espírito, alimentados por conceitos abstratos; somos também corpo, e precisamos de sinais sensíveis (visíveis e sonoros) para nos exprimir e comunicar. Tais sinais são a palavra oral (que é a expressão mais aprimorada) e os gestos ou atitudes (manifestações mais espontâneas e de mais amplo significado).

Quintiliano (+ 95), orador romano pagão, dizia que os gestos são “a linguagem comum a todos os seres humanos” (Omnium hominum communis sermo). No início da civilização cristã, era Santo Ambrósio (+ 397) quem escrevia: “Os movimentos do corpo vêm a ser como que a voz da alma” (Vox quaedam animi est corporis motus). Nos tempos modernos, os psicólogos não hesitaram em subscrever a tais afirmações, pois é fato comprovado que, enquanto a linguagem oral se diferencia de povo para povo, a linguagem dos gestos – ou mímica – é comum a todos os povos, sendo mais ou menos idêntica em todos os tempos. Ela constitui a via primitiva e mais característica através da qual o ser humano se exprime; haja vista o desenvolvimento da criança, a qual começa a se manifestar por gestos antes que por palavras.

Devemos mesmo reconhecer que os gestos são um produto especificamente humano, como observa o psicólogo W. Wundt. Este faz notar que os animais irracionais realizam movimentos para exprimir, mas não propriamente gestos; ou seja, são sujeitos a reflexos condicionados, mas incapazes de concatenar os movimentos do seu corpo de modo a manifestar ideias e raciocínios elaborados por eles mesmos.

O corpo participa da oração

Se a tendência a se exprimir por gestos é tão espontânea na natureza humana, compreendemos então por que ela está intimamente relacionada com a oração, já que esta vem a ser outra expressão característica do ser humano. Podemos mesmo dizer que não há oração sem gesto correspondente ou sem correlativa atitude do corpo; nem mesmo a prece mais íntima, que parece exigir toda tranquilidade possível exclui a participação do corpo. Com efeito, também neste tipo de oração, o corpo exerce uma função visível: entra em posição própria, fica imóvel, de joelhos ou sentado.

Os autores chegam a observar o seguinte: os gestos que acompanham a oração são mais ou menos os mesmos em toda parte e em todos os povos, apesar das diferenças de credo professadas pelos orantes. Dentre os gestos comuns a todas as religiões, podemos enunciar: o bater no peito; o cobrir a face; o estender as mãos para o alto, para a frente ou para os lados; o prostrar-se por terra; o inclinar-se profundamente; o sentar-se em atitude meditativa etc.

Caminhar: arte cheia de nobreza

É sobre esse pano de fundo que devemos considerar as procissões; elas vêm a ser uma forma sensível de culto a Deus. Qual o seu significado?

Para responder, comecemos por notar que somente o ser humano, entre todas as criaturas vivas deste mundo, tem o corpo erguido, sendo capaz de se adiantar em passo firme e disciplinado. O caminhar de estatura erguida constitui verdadeira arte, e arte cheia de nobreza. Sendo particularidade exclusiva da espécie humana, significa propriamente o “ser humano”. Na verdade, quantos sentimentos do íntimo da alma se exprimem através do caminhar?!

Existem, sim, os andares levianos, desiguais, indisciplinados, que revelam superficialidade, despreocupação, desordem de afetos interiores, existe também o andar firme, bem compassado, que manifesta tranquilidade e equilíbrio interiores, harmonia e coragem de ânimo. Pois bem! Caminhando disciplinadamente em procissão religiosa, os fieis podem exprimir três atitudes.

1) Alegria e segurança. O ato de “ficar de pé” simboliza vitória; normalmente, vem a ser a posição de quem vendeu a luta. Ora, quando uma assembleia caminha disciplinadamente em procissão , exprime algo de muito positivo: celebra a vitória sobre o pecado e a morte. Essa procissão equivale a louvor e agradecimento ao Pai Celeste; vem a ser um culto de adoração e glorificação a Deus. Tal é o significado as procissões festivas da Igreja: a do Santíssimo Sacramento, as da Semana Santa, as realizadas por ocasião da festa de um Santo (que é sempre uma obra-prima do Redentor e um estímulo ao louvor do Senhor Jesus);

<!--[if !supportLists]-->2)    2) Súplica mais ardente. São as procissões que o povo de Deus costuma fazer em momentos difíceis, pedindo ao Pai, especial proteção. No passado, isso era feito com certa frequencia, afim de se obter a bênção divina sobre os campos e as colheitas.

<!--[if !supportLists]-->3)    3) Penitência. Além de pedir graças e bênçãos de ordem espiritual e temporal, podemos e devemos suplicar a Deus o perdão dos nossos pecados. Os antigos o faziam, muitas vezes, em procissão, levando publicamente consigo os sinais da sua penitência.

A procura de Deus feita mediante uma caminhada processional corresponde bem à consciência que temos de sermos viajantes e peregrinos nesta Terra; estamos à procura dos verdadeiros bens, que saciem plenamente as nossas legítimas aspirações à Vida Consumada. Todos nós sentimos a nostalgia do paraíso ou daquele estado de vida em que não haverá mais lágrimas nem dor, mas, ao contrário, Deus será tudo em todos (v. Ap 21; 1Cor 15,28).

Antigo Testamento atesta procissões

Pergunta-se agora: qual o fundamento bíblico das procissões? Elas são algo de tão espontâneo no ser humano que já os israelitas as praticavam, como atesta o Antigo Testamento. Vejamos os seguintes textos:

1Samuel 6,10-12. Quando os filisteus devolveram a Arca do Senhor ao povo de Israel, os israelitas “tomaram duas vacas... e as atrelaram ao carro... Puseram a Arca do Senhor no carro... As vacas tomaram diretamente o caminho de Bet-Sames e mantiveram-no..., sem se desviar para a direita ou para a esquerda. 
Os príncipes dos filisteus seguiram-nas até os confins de Bet-Sames”.

2Samuel 6,3-5. “Colocaram a Arca de Deus sobre um carro novo e a levaram da casa de Abinadab, que está no alto da colina. Oza e Aio, filhos de Abinadab, conduziam o carro. Oza caminhava à esquerda da Arca de Deus, e Aio caminhava diante dela. Davi e toda a casa de Israel dançavam, com todas as suas energias, cantando ao som das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos”.

Vê-se, assim, que o hábito de levar em procissão um objeto sagrado é pré-cristão, documentado pelas Escrituras Sagradas. Os cristãos receberam da mensagem bíblica essa prática, que aliás, como já dissemos, corresponde fielmente à índole psicossomática do ser humano.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Católicos perguntam

Um comentário:

Devoção e Fé-Adriana disse...

Olá Iza Maria, Paz e Bem!
Gostei muito deste artigo, que explica todo o significado das procissões.
Que Deus te abençõe.