"PORQUE ONDE ESTIVER O TEU TESOURO, ALI ESTARÁ O TEU CORAÇÃO". Mt 6,21
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Culto aos Santos – Comentário



Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Como se vê, o texto procura ater-se às afirmações bíblicas 
a fim de depreender das mesmas o lugar que toca a Maria e aos Santos na piedade cristã.

Eis, em poucas palavras, o seu conteúdo:

1)      A S. Escritura nos diz que Cristo é Cabeça de um corpo, do qual nós somos membros. Ora desta realidade de Cabeça-Corpo segue-se que existe uma comunhão de vida e de interesses entre Cristo e os cristãos, como também entre os próprios cristãos.

2)      Comunhão é solidariedade. E solidariedade se exprime pela oração: a) oração de Cristo por nós na medida em que é nosso Sacerdote (cf. Hb 7,25; ¹ b) oração dos cristãos uns pelos outros.

3)      A morte de um cristão na terra não extingue essa comunhão; por isso ela subsiste entre os fieis peregrinos neste mundo e aqueles que já passaram para a glória do Pai.

A Declaração* fundamenta as suas afirmações no fato de que Cristo está sempre vivo a interceder por nós (cf. Hb 7,25), como também em textos bíblicos que professam a existência póstuma dos “falecidos”: “O Deus de Abraão, Isaque e Jacó não é Deus de mortos, mas de vivos!” (cf. Mc 12,27); “os que deixam a mansão deste corpo, vão morar junto do Senhor” (cf. 2 Cor 5,8). – Poder-se-iam citar ainda duas outras passagens escriturísticas, que, embora não sejam reconhecidas como canônicas pelos protestantes, são o testemunho das crenças dos judeus nos séculos II/I a.C.

Em 2Mc 15,11-16, narra-se que Judas Macabeu teve uma visão na qual lhe apareciam Onias, sumo sacerdote já falecido, e o profeta Jeremias, também já falecido, como intercessores em prol do povo de Judá ao Senhor Deus. Eis o texto bíblico em pauta:

“Tal foi o espetáculo que tocou a Judas apreciar: Onias, que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso, expressando-se convenientemente no falar, e desde a infância exercitado em todas as práticas da virtude, estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus. Apareceu a seguir, da mesma forma, um homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava. Tomando entoa a palavra, disse Onias: ‘Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’.”

O outro texto que vem ao caso, é o de 2Mc 12,40-45, - (texto já comentado em outra postagem sobre O Purgatório) . Atesta, por sua vez, que já antes de Cristo os judeus admitiam a comunhão entre os vivos e os mortos e a intercessão daqueles em favor destes. Julgam os teólogos que, em vista da solidariedade existente entre vivos e defuntos, Deus comunica a estes as preces e os grandes interesses dos seus irmãos ainda peregrinos na terra. De resto, Santa Teresinha de Lisieux exprimia o senso de comunhão que ela trazia em seu íntimo, ao exclamar:

“Se meus desejos forem atendidos, o meu céu decorrerá sobre a terra até o fim do mundo. Sim: quero passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra. Isto não é impossível porque na visão beatifica os anjos vigiam sobre nós. Não; eu não poderei tomar repouso até o fim do mundo e enquanto houver almas a salvar. Mas, quando o anjo tiver dito: ‘Já não há mais tempo!’ (Ap 10,6), então eu repousarei; poderei gozar porque o número dos eleitos estará completo: todos terão entrado na alegria e no repouso. Meu coração exulta com este pensamento” (Novíssima Verba).

Não há dúvida, a Santa usou de antropomorfismo ao dizer que no céu não descansaria enquanto houvesse tempo; desde que entram na visão beatífica, os santos estão plenamente felizes.

4)      A oração dos Santos pelos fieis peregrinos, como qualquer outra forma de oração, não tem o papel de informar Deus a respeito de necessidades nossas, como se Ele as ignorasse. O Senhor Jesus recomendou-nos insistentemente o recurso à oração (cf. Lc 11,9s; Jo 14,13s; 16,23s), não para “negociarmos” ou “barganharmos” com Deus, tentando dobrar a vontade do Pai ao nosso modo de ver, mas para que colaboremos conscientemente com o plano de Deus. com efeito; quem reza, pode pedir a Deus o que seja honesto, mas dirá sempre no fim, com Cristo: “Faça-se a tua vontade, e no a minha!” (Mc 14,36).

Orar, portanto, é apresentar a Deus, de maneira consciente e generosa, os nossos anseios de que se cumpram os seus santos desígnios; e, para que se cumpram, sugerimos ao Pai o que nos parece condizente com a sua santa vontade: dê-nos o pão de cada dia, a saúde, a veste, a casa..., a alegria; pedimos sugerindo, pedimos supondo que tais objetos correspondam realmente ao intento salvífico do Pai; não imperamos. É assim que colaboramos com a Providência Divina mediante a oração.

5)      Neste contexto percebe-se o lugar de Maria dentro da piedade cristã. Na qualidade de Mãe do Redentor, Ela se acha em especial relação com Cristo. Ademais Ela participa da liturgia celeste de que fala o Apocalipse, como participou da oração dos Apóstolos na expectativa de Pentecostes. Por conseguinte, Maria ora na Igreja e com a Igreja e sua oração não pode deixar de ter especial graciosidade, visto que foi elevada a dignidade singular dentro do plano de Deus.

6) a exaltação da figura de Maria qual Mãe e Advogada do gênero humano não acarreta detrimento para a glória devida a Deus só. Nem Maria nem algum outro santo pode fazer algo de grande em prol dos homens a não ser que isto lhes seja concedido pelo próprio Deus mediante Jesus Cristo. É sempre a obra do Redentor que vemos frutificar nos santos, inclusive na intercessão de Maria em favor do gênero humano.

A piedade para com Maria coaduna-se perfeitamente com o Cristocentrismo que deve caracterizar o cristão; com efeito, este deve ter por programa procurar reproduzir em si a imagem e a vida do Cristo (cf. Rm 8,29); todavia, quanto mais assemelhado a Cristo, tanto mais o cristão há de nutrir para com Maria os sentimentos de veneração e estima filial que Jesus alimentava para com sua Mãe SS.; tanto mais ele será para Maria um outro Jesus. Torna-se, pois, lógica a devoção a Maria, desde que o cristão faça de Jesus o grande referencial da sua vida; ela decorre naturalmente do Cristocentrismo.

Como se vê, a piedade mariana, que, entre grupos protestantes mais recentes, se torna objeto de duros ataques, vem a ser mais e mais entendida e justificada por parte de denominações evangélicas mais antigas e tradicionais; onde os ânimos serenam, pondo de lado qualquer atitude fanática ou obcecada, o olho da fé percebe mais nitidamente a verdade contida na Bíblia e na Tradição e se aproxima de Maria SS., a quem Jesus, antes de morrer, confiou o gênero humano (cf. Jo 19,25-27).

7) A justificativa da piedade para com Maria legitima o culto aos demais Santos, que com Maria SS. integram o Corpo Místico de Cristo ou a comunhão dos santos.

A tradição católica designa como dulia a devoção aos Santos, e hiperdulia a devoção a Maria, tencionado, mediante estes termos, pôr em relevo a diferença existente entre Maria, a Mãe de Deus, e os demais Santos; está claro que à Virgem SS. toca um lugar eminente entre os justos e, por isto, lhe é prestada honra sem par.

É de notar que o culto aos santos nada tem que ver com adoração ou com a apoteose prestada aos heróis pagãos. A adoração (latria) convém a Deus só. A dulia é tão somente a veneração que espontaneamente os fieis católicos prestam aos seus irmãos que heroicamente lutaram nesta vida e obtiveram a coroa da vida eterna; toda família venera respeitosamente os seus antepassados, sem os adorar.

Deve-se ainda mencionar que a liceidade do culto aos Santos como também a do uso das imagens foram longa e calorosamente discutidas durante o século VIII, por influência do judaísmo e do islamismo sobre os cristãos. Após muitos estudos e debates, a consciência cristã se afirmou claramente no Concílio de Nicéia II (787) em favor da dulia aos Santos em geral e da hiperdulia a Maria SS.

Diálogo Ecumênico

 _____________
¹ “(Cristo) pode salvar, agora e sempre, os que por seu intermédio se aproximam de Deus, pois está sempre vivo para interceder por eles” (Hb 7,25).
* Autora do Blog: Conferir na postagem anterior a “Declaração”.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O culto aos Santos


O culto aos santos, tão caro à piedade católica como também aos cristãos orientais ortodoxos, nem sempre é devidamente entendido pelos evangélicos. A estes o culto aos santos lembra as apoteoses ou os endeusamentos que os pagãos praticavam em relação aos seus Imperadores, como também parece derrogar à unicidade da mediação de Cristo Sacerdote.


Precisamente em vista de tais dificuldades, abordaremos o significado do culto prestado à Virgem Maria e aos Santos. Tomaremos como base um documento assinado por quatorze teólogos católicos, protestantes (luteranos, calvinistas ou reformados), anglicanos e ortodoxos orientais no fim de um Congresso Mariológico realizado na ilha de Malta ente 8 e 15 de setembro de 1983; tal documento considera não somente a piedade para com Maria SS., mas também a devoção aos Santos de modo geral.

1.       O texto da Declaração

“Em prosseguimento dos cinco Congressos Mariológicos Internacionais precedentes, o Congresso de Malta (8-15 de Setembro de 1983) permitiu a um grupo de teólogos anglicanos, luteranos, reformados e ortodoxos reunir-se com um grupo de teólogos católicos para refletir sobre a Comunhão dos Santos e sobre o lugar que Maria ali ocupa. Reconhecidos ao Senhor pelos encontros precedentes, e pelas convergências que surgiram , acreditam poder apresentar ao Congresso as conclusões do seu diálogo.
1.       Todos reconhecemos a existência da Comunhão dos Santos como comunhão daqueles que na terra estão unidos a Cristo, como membros vivos do seu Corpo Místico. O fundamento e o ponto central de referência desta comunhão é Cristo, o Filho de Deus feito homem e Cabeça da Igreja (Ef 4,15-16), para nos unir ao Pai e ao Espírito Santo.

2.       Esta comunhão, que é comunhão com Cristo e entre todos os que são de Cristo, implica uma solidariedade que se exprime também na oração de uns pelos outros: esta oração depende daquela de Cristo, sempre vivo para interceder por nós (cf. Hb 7,25).

3.       O fato mesmo de que, no céu, à direita do Pai, Cristo ora por nós, indica-nos que a morte não rompe a comunhão daqueles que durante a própria vida estiveram pelos laços da fraternidade unidos em Cristo. Existe, pois, uma comunhão entre os que pertencem a Cristo, quer vivam na terra, quer, tendo deixado os seus corpos, estejam com o Senhor (cf. 2Cor 5,8; Mc 12,27).

4.       Neste contexto, compreende-se que a intercessão dos Santos por nós existe de maneira semelhante à oração que os fieis fazem uns pelos outros. A intercessão dos Santos não deve ser estendida como um meio de informar Deus das nossas necessidades. Nenhuma oração pode ter este sentido a respeito de Deus, cujo conhecimento é infinito. Trata-se de uma abertura à vontade de Deus por parte de si mesmo e dos outros, e da prática do amor fraterno.

5.       No interior desta doutrina, compreende-se o lugar que pertence a Maria Mãe de Deus. é precisamente a relação a Cristo que, na Comunhão dos Santos, lhe confere uma função singular de ordem cristológica. Além disso, a oração de Maria por nós, deve ser considerada no contexto cultural de toda a Igreja celeste descrito no Apocalipse, ao qual a Igreja terrestre quer unir-se na sua oração comunitária. Maria ora no seio da Igreja como outrora o fez na expectativa do Pentecostes (cf. At 1,14). Por outro lado, quaisquer que sejam as nossas diferenças confessionais, não há razão alguma que impeça unir a nossa oração a Deus no Espírito Santo com a da liturgia celeste, e de modo especial com a da Mãe de Deus.

6.       Esta inserção de Maria no culto ao redor do Cordeiro imolado (aspecto cristológicos), associada a toda a liturgia celeste (aspecto ecclesiológico), não pode dar lugar a alguma interpretação que venha atribuir a Maria uma honra que é devida só a Deus. Além disso, nenhum membro da Igreja saberia acrescentar qualquer coisa à obra de Cristo, que é a única fonte de salvação; não é possível passar senão por Ele, nem recorrer a uma via ‘mais cômoda’ que a do Filho de Deus, para se chegar ao Pai. Ao mesmo tempo é claro que Maria tem o seu lugar na Comunhão dos Santos.

Ao término destas reflexões, nós desejamos dar um testemunho público da fraterna experiência vivida nestes dias. Ela não se limita à atmosfera em que o diálogo se realizou, mas estende-se a todas as atividades do Congresso e à mentalidade religiosa do povo maltês, que, no fervor da sua oração com Maria, nos acompanhava. Conscientes de que há muitos problemas teológicos aos quais o diálogo deverá ainda levar, nós declaramos a nossa vontade de continuar as nossa reflexões no Nome do Senhor.
Não é supérfluo recordar, como se fez ao término do Congresso de Saragoça em 1979, que os signatários, como membros da Comissão Ecumênica do Congresso, não querem senão empenhar-se, bem que tenham trabalhado com a preocupação constante de exprimir a fé das suas respectivas Igrejas.

Malta, 15 de Setembro de 1983.

Wolfgang Borowske, Luterano
Henry Chavannes, Reformado
John de Satge, Anglicano
Johannes Kalogirou, Ortodoxo
John Milburn, Anglicano
Howard Root, Anglicano
John  Evans, Anglicano
Franz Courth, S.A.C.
Theodore Koehler, S.M.
Charles Molette, Sac.
Enrique Llamas, O.C.D.
Stefano de Fiores, S.M.M.

Pierre Masson, O.P.
Secretário”

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
A seguir: Comentário

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

“O que há no além?”



- Não sei quase nada do que há depois da vida.
Mas, sei de uma coisa... 

“EU SEI QUE MEU SENHOR ESTÁ LÁ!
E ISSO É SUFICIENTE!”

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Purgatório - Espórtulas ou honorários


Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

1. Nos primeiros decênios do Cristianismo, por motivos diversos, era costume só se celebrar uma S. Missa em cada igreja por domingo ou por dia. Então todos os fieis manifestavam sua participação na Missa oferecendo o pão e o vinho do rito sagrado ou ouras dádivas naturais (trigo, uvas, óleo, leite, mel, frutas...) destinadas ao sustento do clero e dos irmãos necessitados. Os cristãos se empenhavam generosamente por fazer sua oblação na S. Missa.

Aos poucos o número de presbíteros e de fieis foi-se aumentando, de sorte que uma só Missa não bastava em cada igreja para satisfazer às necessidades e à devoção do povo de Deus. Em consequência, tornou-se impossível que todos os fieis oferecessem sua oblação em cada S. Missa. Mais ainda: o número de celebrações eucarísticas se foi aumentando para atender a intenções próprias de um cristão ou de uma comunidade em particular: por benefícios recebidos, súplicas especiais... As Missas assim celebradas eram chamadas votivas. Por ocasião destas, os fieis interessados é que ofereciam a matéria do sacrifício eucarístico, ao mesmo tempo que indicavam a intenção pela qual seria oferecida a S. Missa.

2. Quanto à oferta de dinheiro na Igreja, pode-se notar o seguinte:

Nas igrejas antigas havia geralmente um tronco ou um cofre destinado a receber as esmolas dos fieis que beneficiariam os ministros do altar e os pobres da comunidade eclesial. Ainda nos século IV, S. Agostinho, fazendo eco a testemunho de bispos e escritores anteriores, atesta o costume de se darem esmolas em dinheiro no cofre de cada igreja.

Aos poucos as oblações de dons naturais feitas por ocasião da S. Missa foram sendo, em parte, substituídas pela oferta de dinheiro. Os motivos para tanto foram vários: era mais fácil manipular o dinheiro do que o pão, vinho, óleo, leite, frutas (simplificava-se e facilitava-se assim a procissão de ofertório); o número de comunhões foi diminuindo a partir do século IV, de modo que se tornaram desnecessárias grandes ofertas de pão e vinho (aos pobres da paróquia se poderia atender mediante dinheiro, e não necessariamente dons naturais). S. Agostinho refere que, em certos lugares, se levavam quantias de dinheiro ao altar por ocasião do ofertório das Missas por defuntos.

A princípio, essas oblações monetárias destinavam-se a toda a comunidade paroquial, e não ao sacerdote pessoalmente. A partir do século VIII, há testemunhos explícitos de que a esmola era dada ao sacerdote celebrante, para que este aplicasse a S. Missa pelas intenções do doador. Assim, por exemplo, o artigo 42 da Regra dos Cônegos de S. Crodegango, bispo de Metz (743-766), autoriza o sacerdote a receber uma esmola (eleemosyna) por sua Missa (pro missa sua). Há indícios, porém, de que esta praxe é mais antiga, indícios recolhidos por De Berlendis, “De oblationaibus ad altare”, part. II § 2, Veneza 1743, pp. 289-299. Vejam-se os seguintes:

S. Beda Venerável (+ 735) refere que, em 679 aproximadamente, os fieis fora da Missa davam aos sacerdotes uma esmola a fim de que celebrassem a Eucaristia para impetrar determinada graça (espiritual ou temporal).

S. João, o Esmoler, bispo de Alexandria (610-616), a pedido de um pai de família, celebrou uma S. Missa para obter a volta de seu filho afastado de casa (graça esta que, realmente, foi obtida).

Ultrogota, esposa do rei Quildeberto (511-518), deu esmola junto ao túmulo de S. Martinho de Tours, pedindo a celebração de Missas.

S. Bento (547) por suas próprias mãos deu a um sacerdote uma esmola destinada à celebração de uma Missa por duas monjas (“Diálogos” II 23).

Segundo S. Epifânio (+ 403), um judeu convertido em 347 entregou dinheiro ao bispo que o batizava, dizendo-lhe: “Oferece por mim”.

No século XI o costume de dar ao sacerdote celebrante uma esmola era muito comum, pois até mesmo as crianças o conheciam. As crônicas narram, por exemplo, o seguinte episódio: S. Pedro Damião, ainda menino, tendo encontrado uma moeda, apressou-se por levá-la a um sacerdote, a fim de que este celebrasse uma Missa pelo repouso da alma de seu pai falecido (“Vita Sancti Petri Damiani per Joannem monachum eius discipulum”, c. II PL CXLIV, col. 117).

Sabe-se também que no século IX eram tão frequentes os donativos em dinheiro para obter a celebração de S. Missa em favor de intenções particulares (sufrágio de defuntos ou por outras intenções) que dois Concílios regionais em Roma, respectivamente nos anos de 826 e 853, recomendaram aos sacerdotes não recebessem na igreja ou em recinto sagrado os numerosos fieis que se interessavam por oferecer seu óbulo (espórtula) e pedir a celebração da S. Missa, por determinada intenção. As autoridades da Igreja também pediam aos sacerdotes que não aceitassem mais de uma espórtula por Missa nem assumissem compromissos de celebração de Missa que não pudessem cumprir.

3. No decorrer dos séculos, principalmente nos séculos XV, XVI e XVIII, levantaram-se vozes que acusavam de simonia ou mercantilismo a praxe das espórtulas. S. Tomás de Aquino (S. Teol. II/II, qu. 100, art. 2) e os teólogos em geral explicam que tal suspeita é infundada. Na verdade, a espórtula não é o preço da Missa; ela não significa “troca de bens materiais por realidades espirituais”. Positivamente, ela exprime a fé e a generosidade cristãs de quem a oferece; ela significa mais íntima participação do doador na celebração da S. Missa. Em consequência dessa mais íntima participação, compreende-se que o doador tenha parte também mais intima e ampla na aplicação dos frutos da S. Missa; a intenção ou as intenções por ele indicadas são especialmente beneficiadas pela celebração da S. Eucaristia (o Senhor atende aos seus fieis na proporção das disposições com que estes O invocam). É, pois, como símbolo de fé e generosidade que se deve considerar a espórtula da S. Missa. É para desejar que quem oferece a espórtula, o faça em profundo espírito religioso, lembrando-se de que assim participa de maneira especial da oblação e, por conseguinte, também dos frutos da S. Missa (seria altamente oportuno que os doadores de espórtula não se limitassem a dá-la mas estivessem presentes à celebração mesma da S. Missa). Deve-se lamentar que a consciência disto nem sempre se encontre viva nas pessoas que pedem a celebração da Missa; muitos são aqueles que apenas dão sua espórtula, sem comparecer posteriormente ao ato litúrgico (quando bem o poderiam fazer).

O Direito da Igreja, no cânon 947, reza: “É preciso afastar da prática das espórtulas da Missa tudo que tenha sabor de comércio ou mercantilismo”. A S. Igreja, mediante minuciosas prescrições, tem-se mostrado assaz severa no cumprimento deste cânon.

4. A prática das espórtulas se justifica por ser um dos meios de manutenção das paróquias e do clero. Já que a Igreja não pode dispensar subsídios financeiros pra realizar sua obra evangelizadora, as espórtulas atendem (assaz exiguamente, aliás) a tal necessidade. Hoje em dia, porém, conscientes de que tal praxe nem sempre é entendida por cristãos ou não cristãos, muitos sacerdotes e bispos vão dispensando espórtulas e taxas do culto, e procuram prover por outras vias aos interesses pecuniários da S. Igreja.

Vê-se, pois, que o costume de mandar celebrar a S. Missa pelos defuntos (oferecendo-se mesmo uma espórtula por ocasião do ato litúrgico) nada tem de interesseiro ou indigno. Não se deve a visão deturpada da mensagem evangélica, mas, ao contrário, deriva-se das linhas centrais da Revelação bíblica e, em particular, do Novo Testamento.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Purgatório - Sufrágio pelas almas

1.Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Desde os primeiros séculos a Igreja tem orado pelos defuntos, principalmente na celebração da S. Eucaristia. O Concílio do Vaticano II, confirmando os dizeres de Concílios anteriores, convalidou tal praxe (ver textos à p. 145).

O fundamento teológico dos sufrágios pelos defuntos é o seguinte:

As almas, no purgatório, não podem acelerar o processo de sua purificação, pois são incapazes de merecer algo (o período de méritos é somente a vida presente). Contudo os cristãos na terra podem ser-lhes úteis em virtude da Comunhão dos Santos (ou Comunhão dos bens sagrados), que une todos os membros da Igreja entre si; já que todos os fieis – militantes, padecentes e triunfantes – formam o Corpo de Cristo, os méritos uns beneficiam os outros. Assim podem os fieis na terra satisfazer pelas almas no purgatório (ao passo que estas apenas podem “satispadecer”). Os sufrágios aplicados às almas do purgatório fazem com que estas sejam mais profundamente penetradas pelo amor de Deus, o qual nelas há de consumir mais rapidamente as impurezas do pecado.

2. Note-se, a propósito, que a comunicação de bens espirituais entre os fieis não conhece classes nem privilégios; todos os bens espirituais da Igreja circulam entre todos os membros desta. Por isto não é adequada a expressão “as almas mais abandonadas no purgatório”; todas as almas são beneficiadas pelos sufrágios gerais da Igreja; na há alma abandonada.

Mais explicitamente: não se deve conceber o purgatório como um cárcere, onde se encontrem prisioneiros de origens diversas; os que têm família numerosa e rica, aí recebem mais visitas e presentes, ou seja, passam melhor do que aqueles que pertencem a famílias pobres ou negligentes; poderão sair da prisão mais cedo do que os seus companheiros indigentes.

Evite-se transpor tal imagem, com suas categorias e classes, para o além-túmulo. O purgatório, de certo modo, transcende os conceitos que adquirimos neste mundo; pertence aos sábios e misteriosos desígnios salvíficos de Deus, a respeito dos quais a Revelação Divina é sóbria.

Por isso não se creia que uma alma do purgatório que na se beneficie de sufrágios - ou por não ter família, ou por só ter parentes incrédulos ou negligentes ou pobres ou negligentes ou pobres – é uma “alma abandonada”; na verdade, ela está envolvida pela infinita misericórdia de Deus, à qual se dirigem constantemente as preces e os sufrágios da Igreja peregrina na terra.

3. Assim também se vê que é infundida a objeção muitas vezes proferida: “As almas de famílias pobres, que não têm dinheiro para mandar celebrar a S. Missa, sofrerão mais, e mais tempo, no purgatório do que as almas dos ricos! O dinheiro é decisivo até no purgatório!”

Não se deve crer que essas regras de lógica terrestre e comercial sejam observadas também por Deus; o Senhor Altíssimo seria muito pobre, muito desfigurado, se atendesse menos solicitamente aos interesses daqueles que menos dinheiro têm em seu favor; herança monetária não significa primazia para alguém, diante de Deus. Jamais se deve esquecer que a graça e a misericórdia de Deus têm o primado sobre os esforços e as obras dos homens. As almas pobres, por conseguinte, são objeto do Amor salvífico de Deus tanto quanto as dos ricos; abstenhamo-nos de estabelecer uma ordem de prioridade nas relações de Deus com as almas.

Acontece, porém, que entre nós e as almas do purgatório há o dever de sufragar,... e de sufragar segundo determinada ordem: impõem-se à nossa caridade primeiramente aqueles que nos estão mais próximos (parentes, amigos, colaboradores, benfeitores...). A uma família cristã – pelo fato mesmo de ser cristã – toca o dever imperioso de sufragar as almas, a começar pelos membros defuntos dessa família.

4. E como sufragar?

Evidentemente a S. Missa, sendo o sacrifício da Cruz perpetuado para beneficiar os homens através dos séculos, é, da nossa parte, o meio mais eficaz para ajudar as almas do purgatório. Esta doutrina sempre foi professada e posta em prática pela Igreja.

É oportuno frisar que não se pode oferecer a Comunhão Eucarística como tal nem pelos vivos nem pelos defuntos; a Comunhão, enquanto sacramento, age apenas sobre o cristão a quem é dada; ninguém pode receber os sacramentos pelos outros. Todavia, na medida em que é obra boa e meritória, a S. Comunhão pode ser oferecida por vivos e defuntos.

Mencionem-se também as orações, particulares e comunitárias, dos fieis, a paciência nas provações de cada dia, os sacrifícios generosamente empreendidos por amor a Deus e ao próximo. – Deve-se frisar que o valor expiatório das obras boas e das preces pelos defuntos é dependente do grau de fervor e caridade de quem as cumpre.

5. Por último, observe-se que nos é impossível avaliar a duração do purgatório, pois este estado não é regido pelo sistema de anos e dias que na terra usamos, considerando os movimentos dos astros. No purgatório, a duração é representada pelos atos dos espíritos, atos de conhecimento e amor; cada um destes atos é uma unidade de duração ou um instante espiritual, e cada qual desses instantes pode corresponder a vinte, trinta ou sessenta horas do nosso tempo solar (como uma pessoa pode permanecer horas contínuas em êxtase, absorvida por um único pensamento); os atos sucessivos dos espíritos constituem a série dos instantes espirituais chamada “evo” ou “eviternidade”. Ora, já que não se vê qual a proporção vigente entre o tempo solar e o evo dos espíritos, torna-se-nos impossível avaliar a duração do purgatório para alguma alma.

A seguir: Espórtulas ou honorários

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Purgatório - Noções complementares

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

1. Paradoxalmente, o purgatório é também um estágio de vida cumulado de alegria,... de alegria a que nenhum dos prazeres da terra pode ser comparado. Com efeito, a alegria no purgatório jorra da consciência que a alma tem, de que ela pertence ao amor de Deus de modo irreversível. Ela sabe que é o amor que a purifica e que nela cresce para penetrá-la por completo.

Deve-se mesmo dizer que a alma no purgatório não deseja evitar este estado, pois reconhece que é um dom da misericórdia divina sem o qual ela não poderia atingir a sua consumação.

S. Catarina de Gênova (+ 1510) deixou no seu “Tratado sobre o purgatório” as seguintes reflexões, que merecem ser levadas em conta:

“Enquanto depende de Deus, vejo que o céu não tem portas, e aí pode entrar quem queira, pois Deus é todo bondade; mas a divina essência é tão pura que a alma, tendo em si algum empecilho, se precipita por si no purgatório, onde encontra essa grande misericórdia: a destruição do seu empecilho.

Enquanto a purificação não está terminada, essas almas compreendem que, caso se aproximassem de Deus pela visão beatifica, não estariam no seu lugar, e em consequência, experimentariam maior sofrimento do que ficando no purgatório” (cap. 9 e 16)

“Paz nenhuma é comparável à das almas do purgatório, excetuando a dos Santos no céu; e essa paz aumenta incessantemente pela influência progressiva de Deus sobre essas almas e à medida que os empecilhos desaparecem. A ferrugem do pecado é o obstáculo...; quando esta ferrugem se vai, a alma reflete cada vez mais perfeitamente o verdadeiro Sol que é Deus. sua felicidade aumenta na proporção em que a ferrugem diminui” (cap. 2).

“As almas do purgatório não podem desejar outra coisa senão permanecer onde estão, como Deus em justiça dispôs... Não podem dizer consigo mesmas: ‘Esta alma será libertada antes de mim’, ou ‘Eu antes dela’... Acham-se tão satisfeitas com as disposições de Deus a seu respeito que amam tudo que agrada a Deus” (cap. 1).

2. Vê-se, pois, que não se deve comparar o purgatório ao inferno. Neste as almas se acham incompatibilizadas com o amor e fixadas para sempre na aversão a Deus e ao próximo. Enquanto o purgatório é prenhe de esperança e caridade serenas, o inferno é a retorsão de todos os valores humanos e cristãos.

No inferno, além da ausência de deus, admite-se algo que a S. Escritura chama “fogo”, aguilhão físico e real, cuja natureza os teólogos não sabem explicitar com exatidão. Fala-se também de “fogo do purgatório”. Parece, porém, que não se trata senão de uma metáfora para designar o próprio sofrimento decorrente da dilação da visão face-a-face.

O conceito de “fogo do purgatório” provocou no século XV (época do Concílio de Florença) decidida repulsa por parte dos cristãos orientais separados de Roma; a estes o fogo do purgatório lembrava um inferno provisório, ou seja, uma aberração doutrinária.

Os cristãos do Oriente até o século XVII aceitavam, sem dificuldade, a ideia de uma purificação póstuma no sentido aqui exposto (sem menção de fogo). A partir do século XVII, porém, sob a influência de autores protestantes, têm hesitado em sua posição doutrinária. Não obstante, ainda hoje muitos aceitam uma purificação póstuma, evitando descer a pormenores e reconhecendo a eficácia da oração e dos sufrágios pelos defuntos.

A seguir: Sufrágios pelos defuntos

domingo, 25 de setembro de 2011

O Purgatório - Que é propriamente o purgatório?


Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

As descrições populares por vezes quase sugerem, seja um inferno em miniatura. Tal concepção fantasista há de ser removida peremptoriamente.

Dissipe-se toda concepção de que o purgatório está sujeito às dimensões de espaço e tempo. O purgatório é, sem dúvida, uma realidade, todavia não ligada a topografia e cronologia. O Papa Alexandre VII (1655-1667) rejeitou a opinião segundo a qual ninguém fica mais de vinte anos no purgatório; intencionava assim remover a ideia de duração cronológica do purgatório. Neste, o que conta é o grau de intensidade, responsabilidade e profundidade dos atos da criatura.
Em termos mais positivos, diga-se:

1) O amor a Deus, em um cristão, pode coexistir com tendências desregradas e pecados leves ao menos semideliberados. Há, sim, em todo indivíduo humano um lastro inato e multicolor de desordem: egoísmo, vaidade, obcecação, covardia, negligência, moleza, infidelidade... Acham-se tão intimamente arraigados no interior do homem que chegam por vezes a acompanhar as suas mais sérias tentativas de se elevar a Deus e de dar a Deus o lugar primacial que lhe cabe na criatura. A psicologia das profundidades dá a saber que essas tendências nem sempre são conscientes, mas muitas vezes atuam no nosso subconsciente ou no inconsciente.

2) Mais: todo pecado (principalmente quando grave, mas também a falta leve) deixa na alma um resquício de si ou uma inclinação má (metaforicamente: ... deixa uma cicatriz, deixa um pouco de ferrugem na alma, dificultando-lhe a prática do bem). Com efeito, o pecado implica sempre uma desordem. Quando, após o pecado implica sempre uma desordem. Quando, após o pecado (grave ou leve), a pessoa, movida por arrependimento, pede perdão a Deus, o Pai do céu perdoa; o Senhor jamais rejeita uma contrição sincera. Todavia o amor do pecador arrependido, por mais genuíno e leal que seja, pode não ser suficientemente intenso para extinguir todo resquício de e concupiscência existente na alma. Em consequência, o pecador arrependido recebe o perdão do seu pecado, mas ainda deve prestar satisfação pelo mesmo. Essa satisfação não há de ser comparada a uma multa mais ou menos arbitrária imposta por Deus ou a um castigo vingativo; ela não é senão uma exigência do amor da alma a Deus, amor que, estando debilitado, pode ser corroborado e purificado.

Exprimindo tal realidade em termos precisos de teologia e direito, o Concílio de Trento em 1547 fez importantes declarações. Rejeitou, por exemplo, a sentença segundo a qual “a todo pecador penitente que tenha recebido a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação de pena eterna que não lhe fica pena temporal a padecer, ou neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus” (D.S. nº 1580 [840]).

O Concílio de Trento declarou ainda:

“No tocante à satisfação... é de todo falso e alheio à Palavra de Deus afirmar que a culpa nunca é perdoada. Com efeito, nas Escrituras Sagradas encontram-se claros e famosos exemplos que... refutam este erro com plena evidência” (DS 1689 [904])

Como exemplos bíblicos de expiação exigida por Deus, mesmo depois de perdoada a culpa, podem-se criar os seguintes:

Moisés e Aarão cederam à pouca fé em dado momento de sua vida; por isto viram-se pelo Senhor privados de entrar na Terra Prometida, embora não haja dúvida de que a culpa lhes tenha sido perdoada (cf. Nm 20,12s; 27,12-14; Dt 34,4s).

Davi, culpado de homicídio e adultério, foi agraciado ao reconhecer o delito; não obstante, teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf. 2Sm 12,13s).

Em outros textos, o perdão é estritamente associado a obras de expiação:

Assim o velho Tobias ensina a seu filho que a esmola o libertará de todo pecado e da morte eterna (cf. Tb 4,11s). algo de semelhante é anunciado por Daniel ao rei Nabucodonosor (cf. Dn 4,24).

O Profeta Joel, junto com a conversão do coração, exige jejum e pranto (cf. Jl 2,12s).

3) Leve-se em conta também que, mesmo após haver recebido o perdão de seus pecados, o homem fica sendo responsável pela desordem que o pecado geralmente acarreta para o próximo e o mundo. As palavras e as ações de um homem têm frequentemente dimensões muito mais amplas do que as do momento presente; seus efeitos escapam às previsões e ao controle de quem as produz. Não é raro que no decorrer de sua peregrinação terrestre o homem deixe marcas de sua atividade que continuarão atuantes mesmo depois da morte do respectivo sujeito.

A justa satisfação pode ser prestada pela criatura ou na vida presente (processo este que é normal e deveria ser considerado por todos os cristãos como programa de vida aqui na terra); o penitente então se empenha corajosamente por livrar-se de suas tendências desregradas e tornar puro o seu amor a Deus e ao próximo. Ou, se não o consegue nesta peregrinação (por motivo de covardia, tibieza ou outro qualquer), compreende-se logicamente que deverá chegar a essa pureza na vida póstuma antes de entrar na visão face-a-face de Deus. Então a criatura se arrependerá por ter condescendido com a moleza e a indefinição; a alma terá consciência de que devia ter sido mais coerente e menos leviana; tomará consciência de que foi cercada pelo amor de Deus no decorrer de toda a sua vida e o ignorou ou esbanjou (amarga consciência). Esta verificação não poderá deixar de lhe ser dolorosa, de mais a mais que alma perceberá que, por causa de sua indefinição na terra, lhe será diferida ou postergada a entrada no gozo definitivo de Deus; ser-lhe-á duro averiguar que faltou ao encontro marcado com Deus, justamente após a morte, quando os fieis mais fome e sede têm de Deus.

Aprofundando as ideias acima, pode-se dizer: é devagar ou lentamente que o homem se torna, segundo todas as dimensões do seu ser, o que ele já é no “núcleo” de sua personalidade. Em outros termos: uma decisão generosamente abraçada pela vontade do homem¹ não costuma penetrar e mover instantaneamente todas as camadas da personalidade; ela muitas vezes encontra, no fundo da consciência ou também no inconsciente do indivíduo, uma resistência mais ou menos tesa, resistência que provém de atos e hábitos do passado do sujeito. É essa resistência que deve ser vencida, de modo a exigir da alma o empenho cada vez mais enérgico do seu amor a fim de que este penetre toda a respectiva personalidade.

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¹ Decisão de levar vida nova, amar mais autenticamente, despertar a fé amortecida.

A seguir: Noções complementares

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O Purgatório – Magistério da Igreja

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

2) Magistério da Igreja

Até o século IV, a crença na existência do purgatório é atestada principalmente pelos sufrágios que os cristãos faziam por seus defuntos, mormente ao celebrarem a S. Eucaristia. A praxe dos sufrágios, usual já nos tempos de Judas Macabeu (século II a.C.), continuou sem interrupção na Igreja. Já que os cristãos não oram pelos réprobos, estas preces supõem fieis que, terminado o seu currículo terrestre, ainda não entraram na posse da bem-aventurança, podendo ser ajudadas nisto pelos irmãos sobreviventes na terra.

S. Agostinho (+ 430) e os escritores subsequentes afirmam mais explicitamente a existência da expiação póstuma anterior ao juízo universal.

O magistério da Igreja colheu e exprimiu a fé do povo de Deus em alguns documentos, que equivalem a definições doutrinárias.

Eis, por exemplo, um trecho da Constituição “Benedictus Deus do Papa Bento XII promulgada em 1336:

“A almas... dos fieis falecidos... dado que nada tenha havido a purificar quando morreram ou nada haja a purificar quando futuramente morrerem, ou – caso tenha havido ou haja algo a purificar – uma vez purificadas após a morte... essas almas, logo depois da morte e da purificação de que precisam,... foram, estão e estarão no céu” (Enquirídio, DS ns. 1000 [530]).

Como se vê, este documento ensina a necessidade eventual de purificação póstuma, purificação que, sendo transitória, preparara a entrada na visão celeste.

O II Concilio de Lião (1264) declarou:

“Se (os cristãos que tenham pecado) falecerem realmente possuídos de contrição e caridade, antes, porém, de ter feito dignos frutos de penitência por suas obras más e por suas omissões, suas almas, depois da morte, são purificadas pelas penas purgatórias ou catartéricas... Para aliviar essas penas, são de proveito os sufrágios dos fieis vivos, a saber, o Sacrifício da Missa, as orações, esmolas e outras obras de piedade que, conforme as instituições da Igreja, são praticadas habitualmente pelos cristãos em favor de outros fieis” (DS 1304 [693]).

O Concílio de Trento (1545-1563) reafirmou a existência do purgatório nos termos do anterior. Prescreveu aos bispos “fizessem que os fieis mantenham a creiam a sã doutrina sobre o purgatório” e “sejam excluídas das pregações populares à gente simples as questões difíceis e sutis e as que não edificam nem aumentam a piedade. Igualmente não seja permitido divulgar nem discorrer sobre assuntos duvidosos ou que trazem a aparência de falso. Sejam ainda proibidas como escandalosas e prejudiciais aquelas coisas que têm em vista provocar a curiosidade ou quem têm o sabor de superstição ou torpe lucro” (DS 1820 [983]).

Destas palavras depreende-se que o Concílio de Trento foi sóbrio e reservado nos seus pronunciamentos acerca do purgatório; procurou, sim, evitar que se confunda a doutrina da fé com expressões da fantasia popular.

Fazendo eco à constante doutrina da Tradição e do magistério da Igreja, o Concílio do Vaticano II na Constituição “Lumen Gentium” afirmou explicitamente três estado em que se possam encontrar os discípulos de Cristo: 1) o de peregrinação na terra; 2) o de purificação póstuma; 3) o de glorificação no céu, conseqüente da visão de deus face-a-face:

“O Sacrossanto Sínodo recebe com grande respeito a venerável fé de nossos antepassados sobre o consórcio vital com os irmãos que estão na glória celeste ou ainda se purificam após a morte, e propõe de novo os decretos dos Sagrados Concílios Niceno II, Florentino e Tridentino” (nº 51).

“Reconhecendo cabalmente a comunhão de todo o Corpo Místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os primórdios da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos defuntos e, porque é um pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que sejam perdoados os seus pecados, também ofereceu sufrágios em favor deles” (nº 50).

“Até que o Senhor venha na Sua Majestade..., alguns dos seus discípulos peregrinam sobre a terra; outros, já glorificados, contemplando claramente o próprio Deus, uno e trino, tal qual é” (Const. “Lumen Gentium” nº 49).

Embora se achem em situações diversas (em via de consumação ou consumados), os fieis constituem uma só grande família, ou seja, “a comunhão de todo o Corpo Místico de Jesus Cristo” (ib. nº 50), pois “todos os que são de Cristo, tendo o seu Espírito, formam uma só Igreja e nele estão unidos entre si” (nº 49). A morte não acarreta interrupção da comunhão eclesial; ela não extingue a comunhão vital existente entre os fieis peregrinos na terra, os irmãos que já se encontram na glória celeste, e aqueles que estão ainda a purificar-se após a morte (cf. IB. nº 51). Ao afirmar esta proposição, o Concílio do Vaticano II apela explicitamente para os Concílios de Nicéia II (787), Florença (1439-1444) e Trento (1545-1563).

Não resta dúvida, pois, de que a doutrina do purgatório constitui um dogma de fé que a Igreja definiu outrora conscientemente e reafirma em nossos dias por seu magistério ordinário e extraordinário.

Importa agora verificar com exatidão qual o conteúdo desse ensinamento da fé.

A seguir: Que é propriamente o purgatório?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Purgatório

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Por “purgatório” entende-se o estado (não um local) em que as almas dos fieis que morrem no amor de Deus, mas ainda portadoras de inclinações desregradas e resquícios do pecado, se libertam destas escórias mediante uma purificação do seu amor. o purgatório vem a ser uma concessão da misericórdia divina, que quer condenar a quem O ama, mas não pode receber em sua santíssima presença qualquer sombra de pecado.

A doutrina do purgatório merece, hoje em dia, ser reestudada. Certas descrições assaz fantasiosas da expiação póstuma contribuíram para fazer perder de vista quanto de belo e nobre há nessa proposição da fé. Por isto, nas páginas que se seguem, procuraremos apresentar a noção de purgatório despojada de concepções pouco condizentes com o depósito revelado.

1. Purgatório: Bíblia e magistério

Antes do mais, é preciso averiguar o que se encontra nos mananciais da fé a respeito do purgatório.

1) Escritura Sagrada

A doutrina do purgatório não se encontra explícita nos livros da Escritura; contudo algumas passagens bíblicas apresentam as ideias fundamentais que a inspiram. Tenham-se em vista os textos seguintes: 2Mc 12,39-46: 39. No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas.

No dia seguinte ao da vitória sobre o general pagão Górgias, Judas Macabeus (+ 160 a. C) descobriu, debaixo das túnicas de seus soldados mortos, pequenos ídolos de que se haviam apoderado no saque de Jâmnia; eram objetos impuros, que a Lei proibia aos israelitas guardar consigo. Acreditava, porém, que os soldados “haviam morrido piedosamente” – o que insinua que a sua culpa não fora grave ou, caso o fora, dela se tinham arrependido antes de morrer. Não obstante, depois da morte ficaram-lhe aderências do mal, das quais deviam ser libertados, a fim de poderem conseguir a “bela recompensa”. E Judas julgava que, em vista desta purificação, lhes podiam ser úteis os sufrágios dos vivos, razão pela qual mandou oferecer um sacrifício expiatório em Jerusalém.

b) 1Cor 3,10-16: 10. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia do Senhor demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo.

O texto trata dos pregadores do Evangelho, os quais edificam sobre Cristo, e não sobre fundamento estranho ou falso. Uns, porém, constroem com zelo (servindo-se de outro, prata, pedras preciosas); outros, com negligência e tibieza (com madeira, feno, palha...). O dia Senhor, ou dia do juízo revelará o afinco de cada qual dos operários. Enquanto os primeiros nada terão de temer, os outros sofrerão detrimento, isto é, padecerão dores e penas; todavia não deixarão de se salvar; salvar-se-ão depois de provar a angústia devida às suas obras imperfeitas – o que (pode-se dizer) insinua o tipo de salvação que ocorre mediante o purgatório (o fogo, porém, neste contexto não é senão o símbolo do juízo de Deus).

Os autores citam também o texto de Mt 5,25s; Jesus aí dá a entender que, aos a caminhada da vida presente (a via), pode haver um cárcere (metáfora), donde o homem réu sai depois de ter expiado por completo. O texto não é suficientemente claro. Como quer que seja, vê-se que a Escritura fornece ao leitor os dados que constituem a estrutura da doutrina do purgatório.

A seguir: O Purgatório

2. Magistério da Igreja
3. Que é propriamente o purgatório?
4. Noções complementares
5. Sufrágios pelos defuntos

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Que haverá depois da morte?

Que haverá depois da morte?



Dom Estêvão responde:


A morte consiste na separação entre o corpo e a alma. O corpo, desgastado pelo uso e pelo tempo, já não oferece condições para que a alma ou o princípio vital nele permaneça e exerça as suas funções. Consequentemente, o corpo, feito cadáver, é lançado à terra, e a alma, sendo espiritual, sobrevive; ela é imortal por si mesma, pois os seres espirituais não morrem, não se decompõem.

A alma, uma vez separada do corpo pela morte, não perde a consciência lúcida, não fica adormecida. Falamos do “sono da morte” por metáfora, ou seja, porque os mortos “parecem”dormir. Na verdade, porém, os cadáveres não têm mais vida, ao passo que as almas, separadas de seus corpos, continuam a viver com toda a lucidez.

Logo após a morte se dá o juízo particular. Este não consiste numa avaliação dos prós e contras da nossa conduta terrestre, pois somos nós quem nos julgamos nesta Terra, ao nos posicionarmos a favor ou contra Deus. Morremos com a nossa sentença lavrada por nós mesmos, com nossa opção feita.

O juízo particular, portanto, consiste na iluminação de todo o nosso currículo de vida, para que possamos ver, com objetividade e sem preconceitos, os valores e desvalores da nossa conduta terrestre. Assim iluminada, a alma humana deseja imediatamente colher os frutos da semeadura realizada na Terra; ela deseja espontaneamente a justa sorte que lhe compete. O fato de não estar unida ao corpo não a impede de utilizar os conhecimentos adquiridos na Terra e de praticar atos de inteligência e de vontade.

Os conceitos de céu, inferno e purgatório

Após a morte e o juízo particular, mesmo antes da ressurreição da carne (que se dará no fim dos tempos), o ser humano tem três destinos possíveis.

1) o céu que é a visão de Deus face a face ou a satisfação plena de todos os nossos anseios, sem aborrecimento nem tédio. Deus será sempre a grande maravilha para os justos no céu. Na pátria celeste, os justos, vendo a Deus, veem também seus familiares e amigos plenamente identificáveis, embora ainda não ressuscitados corporalmente (a alma humana, como princípio vital, traz em si os traços típicos da personalidade de cada um de nós).

Os justos podem interceder por nós no céu, pois Deus nos fez solidários uns com os outros (vivemos na “Comunhão dos Santos”), e esta solidariedade ou comunhão não é rompida pela morte. Deus a conserva e faz com que os justos e Santos no céu conheçam as nossas preces e possam orar por nós.

Especialmente a Virgem Santíssima, na qualidade de Mãe do gênero humano (cf. Jo 19,26), é a Grande Orante que leva ao seu Divino Filho as suas preces em favor dos homens na Terra. Ela, que foi a intercessora do primeiro milagre de Jesus em Caná da Galileia – ao dizer, muito discretamente, com um olhar de mãe atenta: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3) -, continua até hoje a dizer ao Senhor Jesus: “Eles não têm pão, ...não têm casa, ...não têm roupa, não têm paz, ... não têm amor, ...não têm harmonia conjugal...”

2) o purgatório, que é a antecâmara do céu. Com efeito, para ver a Deus face a face, o ser humano precisa de estar isento de qualquer sombra de pecado, pois Ele é três vezes Santo. Assim se alguém morre com seu amor voltado para Deus, mas ainda está contaminado por traços de amor próprio, egoísmo, preguiça, vaidade, omissão, precisará de se libertar dessas escórias do pecado (impropriamente ditas “os pecadinhos de cada dia”). Isto se faz num estado (e não num lugar chamado “purgatório”.

O purgatório não é um lugar onde há fogo e tormentos físicos, mas sim um estágio na qual, voluntariamente, a alma portadora de incoerências, repudia radicalmente o pecado e se desapega totalmente dele, a fim de poder ver a Deus face a face. O purgatório é, portanto, algo de muito lógico: um estado em que nós vivenciamos a experiência de fazer um sincero ato de contrição e de nos livrarmos do pecado.

Nós somos sempre traídos por nós mesmos, porque dias depois de nos arrependermos voltamos às mesmas faltas, tão arraigado está em nós o princípio do pecado. Ora, essa presença profunda do pecado em nosso íntimo precisa de ter um fim: ou acaba na vida presente (mediante uma ascese muito vigilante) ou na vida futura (no estágio do purgatório).

A duração do purgatório não se mede em dias e anos, mas pelo tempo psicológico (ou “evo”), cujas unidades são os nossos atos de conhecimento e amor (teremos sucessivos atos de conhecimento e vontade no além)

3) o inferno, que é o estado (e não lugar) no qual o pecador que tenha morrido apegado ao pecado e avesso a Deus sente a amargura de ter dito “não” a Ele, o Sumo Bem, o Único Bem que não podia ser perdido, mas que foi trocado por um ídolo (o dinheiro, o prazer, a glória...) ou por uma bolha de sabão (colorida por fora, mas vazia por dentro).

O inferno é a frustração definitiva. Não sabemos quantas pessoas morrem impenitentes ou voltadas conscientemente para o pecado; até o fim da vida. Deus acompanha os seus filhos mais rebeldes, oferecendo-lhes a sua graça. O inferno é tormentoso, porque Deus continua a amar o pecador que dele se afastou e que se condenou voluntariamente (pois, na verdade, não é Deus quem condena, mas é o ser humano que, voluntariamente dizendo “não” a Deus, se projeta na desgraça). O pecador reconhece finalmente que Deus é o Supremo Bem, mas não lhe quer aderir, pois a morte fixa cada um de nós na sua última opção; após a morte não é possível a conversão.

O modelo do corpo ressuscitado de Jesus

No fim dos tempos, quando Cristo voltar sobre a Terra como Juiz de todos os homens e Consumador da História, os corpos ressuscitarão. Será recomposto o ser humano, que não é um anjo encarnado por acaso, mas sim uma criatura psicossomática. Para ressuscitar os corpos, Deus não precisará de recolher a poeira do solo; bastará que Ele uma à alma de cada indivíduo o que a filosofia chama “matéria-prima”; esta assumirá as feições típicas do corpo daquela alma.

O corpo ressuscitado, portanto, será matéria, e não energia ou luz impessoal. Matéria transfigurada, glorificada, espelho da graça que estiver na alma. Cada corpo ressuscitado poderá ser identificado e reconhecido; não haverá despersonalização. O modelo do corpo ressuscitado é o de Jesus aos a sua ressurreição: ainda trazia as chagas (glorificadas) da sua Paixão, mas era isento das vicissitudes que atormentam os nossos corpos mortais (fome, sede, cansaço, pranto, lágrimas...).

Os Santos todos ainda aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas já gozam da visão beatífica. Somente a Virgem Maria já se encontra glorificada em corpo e alma no céu, como celebramos na Festa da Assunção, no dia 15 de agosto.

Eis, caros leitores, o que em poucas frases podemos dizer sobre a vida após a morte. Não esqueçamos, no entanto, que a respeito de tal assunto, mais podemos balbuciar do que dissertar, pois São Paulo nos diz:

“O que os olhos não viram,
O que os ouvidos não ouviram
E o coração do homem jamais percebeu,
Eis o que Deus preparou para aqueles que o amam”.

(1Cor 2,9)

Católicos Perguntam – Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

sábado, 13 de novembro de 2010

Purgatório continuação - Desordem para o próximo e o mundo




3) Levemos em conta também que, mesmo após haver recebido o perdão do pecado, o homem fica sendo responsável pela desordem que o pecado geralmente acarreta para o próximo e para o mundo. As palavras e as ações de um homem têm, frequentemente, dimensões muito mais amplas do que as do momento presente; seus efeitos escapam às previsões e ao controle de quem as produz. Não é raro que, no decorrer de sua peregrinação terrestre, o homem deixe marcas de sua atividade, as quais continuarão atuantes mesmo depois da morte do respectivo sujeito.

4) A justa satisfação pode ser prestada pela criatura ainda na vida presente (processo este que é normal e deveria ser considerado por todos os cristãos como programa de vida aqui na Terra), quando o penitente então se empenha, corajosamente, por se livrar de suas más tendências e tornar puro o seu amor a Deus e ao próximo. Se não o consegue nesta peregrinação (por motivo de covardia, tibieza ou outro qualquer), compreende-se logicamente que deverá chegar a essa pureza na vida póstuma, antes de entrar na visão face a face de Deus.

Nessa hora, a criatura se arrependerá por ter condescendido com a moleza e a indefinição; a alma terá consciência de que deveria ter sido mais coerente e menos leviana; tomará consciência de que foi cercada pelo amor de Deus no decorrer de toda a sua vida e o ignorou ou esbanjou (amarga consciência). Essa verificação não poderá deixar de lhe ser dolorosa, principalmente porque a alma perceberá que, por causa de sua indefinição na Terra, será adiada ou postergada a sua entrada no gozo definitivo de Deus. Além disso, lhe será duro averiguar que faltou ao encontro marcado com Deus justamente após a morte, quando os fieis mais fome e sede têm de Deus.

Aprofundando ainda essas ideias, podemos dizer: é devagar ou lentamente que o homem se torna, segundo todas as dimensões do seu ser, aquilo que ele já é no núcleo de sua personalidade. Em outros termos: uma decisão generosamente abraçada pela vontade do homem não costuma penetrar e mover instantaneamente todas as camadas da personalidade; ela muitas vezes encontra, no fundo da consciência ou também no inconsciente do indivíduo, uma resistência mais ou menos tenaz, resistência esta que provém de hábitos passados do sujeito. É essa resistência que deve ser vencida, de modo a exigir da alma o empenho cada vez mais enérgico do seu amor, a fim de que este possa penetrar em toda a respectiva personalidade.

Fala-se de fogo do purgatório; todavia, isso não é senão uma metáfora, para designar o sofrimento decorrente do adiamento da visão face a face. Paradoxalmente, o purgatório é também um estágio de vida cumulado de alegria... Com efeito, esta jorra da consciência que a alma tem, de que pertence ao amor de Deus de modo irreversível. Ela sabe que é o amor que a purifica e que nela cresce, a fim de poder penetrá-la por completo. Deve-se mesmo dizer que a alma no purgatório não deseja evitar este estado, pois reconhece que o mesmo é um dom da misericórdia divina, sem o qual não poderia atingir a sua consumação.

Eis a autêntica noção de purgatório. Vemos que é algo de muito lógico, fundado na Escritura e aprofundado pela tradição da Igreja. Possam os fieis tomar consciência sempre mais viva da necessidade de perfazer seu purgatório na presente vida mesmo!

Católicos Perguntam – Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O purgatório...

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

A doutrina do purgatório constitui um dogma de fé que a Igreja ensina por seu constante magistério (Ver Catecismo da Igreja Católica, nº 1031). Vejamos em que consiste.


1) O amor a Deus, num cristão, pode coexistir com tendências desregradas e pecados leves (ao menos, semideliberados). Há, sim, em todo indivíduo humano, um lastro inato de desordem: egoísmo, vaidade, amor próprio, covardia, negligencia, moleza... Tudo isso se acha tão intimamente arraigado no interior do homem que chega, por vezes, a acompanhar as suas mais sérias tentativas de se elevar a Deus e dar a Ele o lugar primacial que Lhe compete. A psicologia das profundidades ensina que essas tendências nem sempre são conscientes, mas muitas vezes atuam no nosso subconsciente ou no inconsciente.

Pecado deixa ferrugem na alma

2) Mais: todo pecado (principalmente quando grave, mas também a falta leve) deixa na alma resquícios de si ou uma inclinação má (metaforicamente: deixa uma cicatriz, deixa um pouco de ferrugem na alma, dificultando-lhe a prática do bem). Com efeito, o pecado implica sempre numa desordem. Quando, após o pecado, a pessoa se arrepende e pede perdão a Deus, o Pai do céu perdoa (o Senhor nunca rejeita a contrição sincera). Mas o amor do pecador arrependido, por mais genuíno e leal que seja, pode não ser suficiente para extinguir todo resquício de amor desregrado e egoísta existente na alma. Em consequência, o pecador arrependido recebe o perdão do seu pecado, mas ainda deve-se libertar da desordem deixada pelo pecado em sua alma. De fato, quantas vezes se verifica que, mesmo após uma confissão sincera e contrita, o cristão recai nas faltas de que se arrependeu!

Isto se deve ao fato de que ficou no seu íntimo a raiz ou o princípio do pecado. Figurativamente, pode-se dizer que o cristão arranca a folha e o caule da tiririca, mas dificilmente arranca também o caroço ou a raiz da mesma; esta se manifesta dentro em pouco, através de novos pecados. Para extirpar o princípio do pecado remanescente, o cristão deve excitar e exercitar mais intensamente o amor a Deus.
Ora esse estímulo do amor a Deus se realiza mediante a satisfação ou atos de penitencia que despertem e fortaleçam o amor a Deus no íntimo do cristão. Notemos bem: a satisfação assim entendida não deve ser comparada a uma multa mais ou menos arbitrária imposta por Deus ou a um castigo vingativo; é, antes, um auxílio medicinal; é também uma exigência do amor do amor do cristão a Deus, amor este que, estando debilitado pode ser corroborado e purificado.
Exprimindo essas verdades em termos precisos, o Concílio de Trento em 1547, frente às objeções protestantes, fez importantes declarações: Rejeitou, por exemplo, a sentença segundo a qual “a todo pecador penitente que tenha recebido a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação de pena eterna, que não lhe fica pena temporal a padecer ou neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus” (DS 1580).

O Concílio de Trento declarou ainda: “No tocante à satisfação, é de todo falso e alheio à Palavra de Deus afirmar que a culpa nunca é perdoada. Com efeito, nas Escrituras Sagradas encontram-se claros e famosos exemplos que... refutam este erro com plena evidência” (DS 1689). A culpa é perdoada, sim. Mas a Escritura mostra que, mesmo depois de perdoada, o Senhor Deus exige satisfação ou reparação da ordem violada pelo pecado.
Esta exigência é facilmente compreensível, se levarmos em conta o seguinte: quem rouba um relógio, pode pedir e receber o perdão do respectivo proprietário, mas este exigirá que a ordem seja restaurada ou que o relógio volte ao seu dono. Da mesma forma, quem difama caluniosamente o seu próximo, pode pedir e receber o perdão deste, mas a pessoa difamada exigirá que se restaure a fama a quem tem direito.
Também os pecados meramente internos (de pensamento e desejo) alimentam ou suscitam desordem interna no pecador, de modo que este precisa restaurar ou introduzir a ordem em seu íntimo, mediante atos de penitência ou renúncia. Tenhamos em vista os seguintes casos: a) Davi, culpado de homicídio e adultério, foi agraciado ao reconhecer o delito; não obstante, teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf 2Sm 12,13s); b) Moisés e Aarão cederam à pouca fé em dados na Terra Prometida, embora não haja dúvida de que a culpa lhes tenha sido perdoada (cf Nm 20,12s; 27,12-14; Dt 34,4s).
Em outros casos, o perdão é estritamente associado a obras de expiação. Assim o profeta Joel, com a conversão do coração, exige jejum e pranto (cf Jl 2,12s); o velho Tobit ensina a seu filho que a esmola o libertará de todo pecado e da morte eterna (cf Tb 4,11s); algo de semelhante é anunciado por Daniel ao rei Nabucodonosor (cf Dn 2,24).

A seguir: Desordem para o próximo e o mundo

sábado, 23 de outubro de 2010

Um exemplo de psicofonia que ganhou fama internacional...

... é o da sra. Leonard, relatado na obra “The Mediunship of Mrs. Leonard” (T), de Susy Smith. A sra. Leonard era honesta e respeitável sob todos os aspectos em sua vida particular e pública. Mas praticava a mediunidade, e nas sessões espíritas, inconscientemente, era ventríloqua, apresentando a voz das suas entranhas como voz do além. Muitos acreditavam ingenuamente nessa apresentação, que na verdade não passava de fenômeno psicológico envolvido em aura de mistério.

Vemos, assim, que a psicofonia nada tem de transcendental, sendo simplesmente o produto de faculdades de pessoas especialmente sensitivas, cujo inconsciente ou consciente é excitado para que falem por ventriloquia. À guisa de ilustração, seguem-se observações de Charles Richet em seu “Tratado de Metapsíquica” (espírita): “Quando as entidades se manifestam cometendo erros, dizendo ingenuidades e mostrando graves esquecimentos, é impossível supor que seja o espírito do morto que se manifesta ou que ressurge... Certamente nada nos obriga a atribuir às personalidades dos mortos os mesmos sentimentos, iguais modos de raciocinar e os mesmos juízos dos tempos em que se encontravam na Terra. As personalidades dos defuntos se encontram com ridículas afirmações, comprazendo-se em trocadilhos pueris e muitas vezes com insultos e chistes... São retalhos, fragmentos de inteligência, de inteligência medíocre. Os desencarnados esquecem as coisas essenciais para se preocuparem com minúcias que durante a vida não teriam ocupado um minuto da sua atenção. Voltar à vida para se interessar por essas coisas é mesquinho, é inverossímil. Quantas interpretações simbólicas, cheias de nebulosidades e fantasias para se subtrair à evidência de que não é a personalidade psicológica que o mesmo possuía quando vivia neste mundo! Esta arbitrariedade de afirmações nos manifesta a impossibilidade científica da identificação dos espíritos. Se a sobrevivência consiste em ter a inteligência de um desencarnado, prefiro não sobreviver!” (Traité de Métapsychique, pág. 776).

Sem comentários...

Católicos Perguntam – Dom Estêvão Bettencourt OSB

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fale a parapsicologia

As experiências de psicologia e parapsicologia explicam satisfatoriamente o fenômeno da psicofonia, sem necessidade de recurso a algum espírito do além.

Com efeito, a ciência nos diz que a psicofonia é produto de ventriloquia ou de linguagem proferida a partir das entranhas do sujeito (²). Essa ventriloquia pode ser efetuada por um médium em circunstâncias diversas.

- de maneira consciente. Temos então embusteiros ou trapaceiros. Para mais iludir os ouvintes, alguns médiuns usam de trombetas, através das quais eles afirmam que os mortos falam; além disso, só trabalham em salões escuros ou semi-escuros, jamais aceitando fazer sessões à luz do dia ou de lâmpadas. As trombetas têm a vantagem de tornar mais elevada e retumbante a voz do ventríloquo, desde que esta seja fraca ou pouco perceptível.

- de maneira inconsciente. Pode haver médiuns honestos, dotados de faculdade de ventriloquia, que utilizem tal faculdade sem o saber, de tal modo que atribuem, de boa fé, as vozes ao além. A ventriloquia inconsciente é explicada pelas leis da associação ou pela constituição psicossomática do ser humano. Com efeito, quando alguém concebe uma ideia ou uma imagem qualquer, esta tem sua repercussão no cérebro e nos músculos motores da linguagem e da mímica do sujeito. Ora, de acordo com a grande sensibilidade da pessoa, essa repercussão nos músculos pode chegar a dar origem a uma fonação ou a uma linguagem falada (e, no caso da psicofonia... à linguagem escrita).

Já alguns pesquisadores quiseram demonstrar, experimentalmente, ser impossível que alguém tenha a representação mental de uma sílaba sequer sem que haja, simultaneamente, um movimento nos músculos que contribuem para articular tal sílaba!

O conteúdo das frases assim produzidas procede do consciente ou do inconsciente da pessoa ventríloqua. Quando provém do inconsciente, o próprio médium se surpreende com os efeitos registrados, tendendo a atribuí-los, sinceramente, aos espíritos “desencarnados”.

A gravação das vozes psicofônicas torna tais efeitos independentes do respectivo médium aos olhos do grande público. A fita gravada, transportada para diversos ambientes, pode ser apresentada e considerada como resultante da intervenção de seres extraterrestres ou desencarnados. Dissemina-se facilmente, então, a crença de que, realmente, os mortos assim se comunicam com os vivos.

A seguir: A última parte do texto do livro intitulado Católicos Perguntam – Dom Estêvão Bettencourt OSB

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(²) Pode-se definir o ventríloquo como aquele que sabe falar sem abrir a boca e mudando de tal modo a voz que parece sair de outra fonte que não ele.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os mortos falam aos vivos?


“Afinal, é ou não possível os mortos falarem com os vivos? Eu mesma conheço vários casos em que pessoas falecidas mantiveram contato com seus entes queridos...”

A psicofonia é o fenômeno de vozes misteriosas que a crença popular costuma atribuir ao além, como se os mortos se comunicassem com os vivos mediante linguagem humana. Muitas vezes essas vozes são gravadas em fitas magnéticas, de modo que se tornam célebres, percorrendo o mundo, e corroboram no público a crença de que os defuntos se manifestam por tal via.

Tais vozes têm características importantes:

- em alguns casos, são roucas a princípio, tornando-se pouco a pouco compreensíveis;
- aludem umas às outras, às veze s se contradizendo;
- às vezes se assemelham a suspiros, gemidos, grunhidos, chiados, dando a impressão de não serem articuladas pela garganta humana;
- os dizeres dessas vozes são irrelevantes; nunca trouxeram contribuição alguma para a solução dos problemas da ciência ou da vida dos homens em geral. Não raro se trata de frases incompletas, evasivas; fazem, por vezes, alusões às pessoas presentes e aos seus problemas. Ou exprimem ameaças de castigos e catástrofes, ou formulam críticas e censuras de todo tipo contra os habitantes da Terra.

Consolo do além

Muitas pessoas se entusiasmam com este fenômeno, julgando que podem falar com entes falecidos há anos, o que é muito consolador. Dizem que já conseguiram mensagens do Irmão Asterin, do planeta Vênus; do grande mestre Kalen Li, do planeta Kangor; do guia espiritual do universo, o Irmão Mestre Karjan, do planeta Lorendor; do Mestre Espiritual Lingol... Tem-se a impressão, através dessas mensagens, de que os “desencarnados” vivem no além uma vida semelhante à da Terra, com suas casas, suas ruas, cidades...

No Brasil, a escritora e poetisa Hilda Hirat, de Campinas, Estado de São Paulo, impressionada por obras referentes à psicofonia, diz ter feito experiências desta arte, as quais ela assim descreve: ”Durante muito tempo nada aconteceu. Até que um dia apareceu a expressão: ‘Ah, querido! ’ Em outra oportunidade, com um amigo gravei a frase: ‘Que lindo dia! ’ Aos poucos, as gravações, que eram obscuras e muito difíceis de entender, foram melhorando, tanto que captei uma frase em Frances enquanto meu aparelho estava acoplado à FM, sintonizando a Rádio Eldorado. Ao escutar a gravação da fita, uma surpresa: uma frase bastante longa e em Frances: ‘Dans ce Roman (nous eumes ou n’osez) des petits fils! Chante notre ami! ’ (¹). Interpretei a frase como sendo um recado para mim, significados importantes, relacionados com experiências íntimas” (transcrito do livro de José Lorenzatto, Parapsicologia e Religião – Ed. Loyola, 1979, pág. 90).

A simples leitura deste relato mostra o quanto ele tem de subjetivo e confuso.

De resto, as mensagens psicofonicas, às vezes, carecem de construção gramatical; as palavras que as compõem são de línguas diferentes – “cp, ete, os” – e são cometidos os mesmos erros de linguagem do próprio médium ou receptor. Os mortos aí dizem pilhérias ridículas, comprazendo-se em trocadilhos pueris e expressões de inteligência medíocre.

Qual seria a explicação do fenômeno?
A seguir: Fale a parapsicologia
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( ¹ ) Isto quer dizer: “Nesse romance (tivemos ou não ouseis) netinhos. Canta o nosso amigo”.

Católicos Perguntam - Dom Estêvão Bettencourt, OSB