"PORQUE ONDE ESTIVER O TEU TESOURO, ALI ESTARÁ O TEU CORAÇÃO". Mt 6,21

domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Vigiai!" (Mc 13,37)

Dom Estêvão neste belo texto abaixo nos fala sobre a importância da Vigilância, especialmente neste Tempo da Quaresma, durante o qual vivemos a expectativa da Páscoa.

Vigiar é abster-se do sono da noite seja por motivo de trabalho, seja porque se espera algo muito importante, como a vinda de um amigo ou a de um inimigo (assaltante).
A vigilância é uma das atitudes mais incutidas por Jesus aos seus discípulos: “O que vos digo, digo-o a todos: Vigiai!” (Mc 13,37). Jesus assim faz do cristão alguém que espera... e espera a todo momento, incessantemente. E que espera? – Espera a vinda do seu Senhor que o levará à plenitude da vida ou dos dons já outorgados seminalmente na caminhada terrestre.
Não é difícil ao ser humano tomar consciência de que ele é um caminheiro à procura de valores que ele conhece palidamente e deseja possuir em plenitude, pois foi feito para eles: Verdade, Amor, Felicidade, Vida... Este anseio natural é sadio; vem da parte do Criador, que lhe quer satisfazer. Por isto o Cristianismo muito enfatiza o esperar com vigilância incessante.
Jesus prevê que tal vigilância seja submetida a provações; o Senhor não vem sempre à hora desejada pela criatura (cf. Mt 25,1-13); Ele se atrasa, Ele se cala quando se esperaria dele uma palavra de reconforto. Este comportamento do Senhor pode induzir o servidor a esquecer que ele é filho da Luz, que aguarda em meio às trevas da noite a plenitude da Luz.
As trevas implicam orgia, devassidão, libertinagem... (Rm 13.14), ao passo que a Luz exige sobriedade e alerta permanente, especialmente quando a noite se vai prolongando e não há sinal de próxima chegada do Senhor.
O Apóstolo chega a falar de uma armadura espiritual para enfrentar os dardos inflamados do Maligno, que faz a ronda durante a noite; cf. Ef 6,14-17; 1Pd 5,8.
A estima da vigilância suscitou entre os cristãos a prática das vigílias noturnas. A noite não somente é imagem do que há de pecaminoso no mundo; ela também propicia geralmente um clima de paz, que permite mais fácil elevação da alma a Deus; em sua presumida tranquilidade ela parece libertar o espírito de quem deseja passar do visível ao INVISÍVEL. Daí o hábito das vigílias noturnas não só nos mosteiros, mas também nas comunidades paroquiais,... hábito que parece ter estado em voga já nos tempos de São Paulo: “Fazei sempre, pelo Espírito, orações e súplicas. Ocupai com elas as vossas vigílias com perseverança infatigável” (Ef 6,18).
Assim a vigilância – atitude básica do cristão – é mais concretamente exercida nas trevas da noite, a exemplo, aliás do que fazia o Senhor Jesus (cf. Lc 6,12; Mc 1,35).
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Revista Pergunte e Responderemos – Fevereiro 2003
Nº 488

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ecumenismo...

Um tema bem atual


Em 1996, Dom Estêvão respondeu a seguinte pergunta: Qual sua opinião sobre o Ecumenismo?
Pergunte e Responderemos – Dezembro 1996 - Nº 415

O Ecumenismo é o movimento que visa a restabelecer a plena comunhão entre a Igreja Católica e as demais denominações cristãs que no decorrer dos séculos se foram separando do grande tronco católico: orientais (nestorianos, dissidentes em 431; monofisitas em 451; ortodoxos em 1054), protestantes separados em 1517, Velhos Católicos em 1870.
O Ecumenismo é algo inspirado pelo Espírito Santo em nosso século, quando se verifica que as separações não têm mais as razões de ser que a suscitaram na época da respectiva cisão.

Em nossos dias há quase total identidade de Credo entre católicos e cristãos orientais. Com o protestantismo o diálogo é mais difícil, dado o esfacelamento do bloco protestante, onde as denominações mais recentes já perderam muito ou quase tudo do patrimônio doutrinário genuinamente cristão, reduzindo o Cristianismo a uma escola de bons costumes inspirados pela Bíblia sem referência explícita aos sacramentos.

Além das diferenças doutrinárias (ora mais, ora menos apagadas), nota-se que uma das dificuldades para o bom entendimento entre cristãos, provém de questões de ordem histórica (as Cruzadas, por exemplo, no Oriente...), cultural, nacionalista...; quando menos cultura há em alguma porção da população, tanto mais apego parece haver a costumes locais, de importância secundária, mas altamente apreciados pela gente simples.

No nível teológico-doutrinário, as conversações entre católicos e cristãos não católicos estão adiantadas e são bem sucedidas: a Igreja Católica tem-se esforçado ao máximo para fomentar a aproximação e derrubar preconceitos. O fato, porém, de que a Comunhão Anglicana resolveu conferir a ordenação sacerdotal e a episcopal a mulheres esfriou um tanto o relacionamento entre anglicanos, de um lado, e católicos e orientais, de outro lado; o Oriente é profundamente conservador e fiel às suas tradições.

No plano popular, o Ecumenismo tem sido muito menos feliz, a ponto de não ser recomendado entre fieis despreparados, pois os novos movimentos religiosos oriundos do protestantismo querem aproveitar-se dos encontros com os católicos para exercer proselitismo.

Como quer que seja, o Ecumenismo merece ser fomentado entre pessoas dispostas, conhecedoras, com segurança, das verdades da fé, capazes de evitar tanto a polêmica quanto o falso irenismo (ou concessões doutrinárias destinadas a insinuar que não existem diferenças de Credo).

A Igreja Católica propõe suas normas a respeito tanto no decreto Unitatis Redintegratio do Concílio do Vaticano II quanto em documentos provenientes da Santa Sé e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Vossos Corpos... Hóstia Viva, Santa" (Rm 12,1)


“Mais do que nunca, os nossos dias levam a pensar no corpo humano e sua dignidade. A respeito encontram-se na história duas concepções antagônicas:

a) a concepção pessimista: no Oriente e na Grécia antiga certas escolas consideravam o corpo humano como sepulcro (soma = sema, em grego) ou cárcere, do qual o ser humano tende a se libertar. O vilipêndio do corpo até a época moderna é sustentado por correntes não cristãs: assim nos séculos XIX/XX a Maçonaria propugnava a cremação dos cadáveres para incutir a tese de que são lixo, totalmente imprestável após a morte do imprestável após a morte do indivíduo¹. No século XX duas guerras mundiais contribuíram para a devassidão e o aviltamento do corpo.
b) a concepção otimista valoriza até o excesso o corpo humano mediante ginástica, dieta alimentar, vestimentas... A pessoa vale então pelo traçado do seu corpo.
A estes dois enfoques não cristãos justapõe-se o modo de ver cristão, que se compendia nas palavras do Apóstolo: “Oferecerei vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus” (Rm 12,1). Na verdade, pelo Batismo o cristão é feito templo do Espírito Santo (1Cor 6,1). Diz ainda o Apóstolo: “O corpo é para o senhor e o Senhor é para o corpo” (1Cor 6,10). Isto significa que a vida do cristão vivida no corpo, com tudo o que ela tenha de corriqueiro e comezinho, é um culto prestado a Deus; não é existência profana mesmo quando trata de coisas profanas, mas é um permanente louvor a Deus.

Mais: o corpo humano é um microcosmos ou um compêndio de macrocosmos (existe como os minerais, vegeta como as plantas sente com os animais irracionais, possui intelecto como os anjos), de modo que através da mediação sacerdotal do homem o mundo inferior dá glória a Deus.

Eis o que ensina o Concílio do Vaticano II: “Corpo e alma, mas verdadeiramente uno, o homem, por sua constituição corpórea, sintetiza em si os elementos do mundo material, que nele atinge sua plenitude e apresenta livremente ao Criador uma voz de louvor” (Gaudium et Spes nº 14).

Com outras palavras: o mundo inteiro, através do comportamento cotidiano do homem, dá glória a Deus. Tal é a grande dignidade das pequenas coisas de cada momento!

O corpo humano, santuário da Divindade ainda é mortal. Deve ser transfigurado como foi o de Maria SSma., à semelhança do corpo de Cristo (Fl 3,21). Esta esperança anima o cristão e o faz mais e mais ansiar pela plenitude da obra que o Espírito Santo nele realiza!
______________
¹ A partir de 1964 a Igreja aceita a cremação de cadáveres, pois pode ser indicada por razões de higiene, urbanismo, economia, sem intenções filosóficas anticristãs.
Revista Pergunte e Responderemos
Setembro 2003 – nº 495

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Trabalhai para vossa salvação...

Leitura breve
Fl 2,12b-15a

Trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor.
Pois é Deus que realiza em vós tanto o querer como fazer,
conforme o seu desígnio benevolente.
Fazei tudo sem reclamar ou murmurar,
para que sejais livres de repreensão e ambiguidade,
filhos de Deus sem defeito.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Simples Voz ou Palavra de Deus?

O Imperador Trajano (98-117) em 107 quis oferecer ao povo de Roma “grandioso espetáculo”: homens ilustres e gladiadores seriam expostos a 11.000 feras no Coliseu, a fim de que o público presenciasse a luta e “se divertisse”. ¹ Entre os convidados, estava um cristão chamado Inácio, bispo de Antioquia (Síria). Fora preso por causa da sua fé.

Durante a viagem para Roma, a escolta que o acompanhou fez escala em Esmirna (Turquia de hoje); aí Inácio resolveu escrever uma carta aos cristãos de Roma...

E que lhes diria? – Queria pedir-lhes que não intercedessem em seu favor junto às autoridades imperiais, mas deixassem que fosse levado até o certame final e o martírio. ² Dessa carta merece destaque, entre outros, o seguinte trecho:

“Se vos calardes a meu respeito, serei Palavra (Lógos) de Deus; se, porém, amardes a minha carne, serei simples voz (phoné)” (nº 2).

A distinção entre phonésimples voz – e lógospalavra ou discurso significativo – era usual entre os antigos. S. Inácio a aplica a si: o martírio ou o testemunho de Cristo proferido até a morte cruenta o tornará palavra de Deus; caso contrário, perderia a grande oportunidade da sua vida e se julgaria reduzido à condição de simples sopro.

Os dizeres de S. Inácio têm valor perene. Lembram-nos que todo homem, por seu teor de vida, pode assumir três configurações:

- será simples voz, sem significado, caso ceda à futilidade, supondo um coração vazio;

- será palavra... de homem, caso sua vida se norteie pelas luzes da mera razão ou pela mensagem de um filósofo sem fé;

- será Palavra... de Deus, desde que o cristão faça da mensagem do Senhor o dínamo da sua existência. Em tal caso, o seu viver já é Palavra de Deus. Tal é a dignidade máxima que a vida humana possa assumir, qualquer que seja a sua classe social; despretensiosa, voltada para os afazeres modestos de cada dia, tal existência traduz concretamente a mensagem de deus. Mesmo que fale pouco, tal vida é eloquente e persuasiva; ela levanta os ânimos e abre horizontes...

O mundo procura tal tipo de existência, pois está cheio de vozes (phonai), mas carente de Logos (Palavra) de Deus.

Todo cristão é chamado a responder a tal anseio, fazendo de sua vida a expressão da mensagem de Deus.
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Revista Pergunte e Responderemos
Agosto 1991 – nº 351

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

¹ Não sem razão se diz que o povo da antiga Roma se contentava com panes et circenses (pão e espetáculos de circo).
² Deixai que seja presa dos animais ferozes; por eles chegarei a Deus; oxalá seja moído pelos dentes dos animais, para tornar-me o pão puro de Cristo! (nº 4).

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Transfiguração de Jesus...

Revelação de sua glória e divindade
Mt 17,1-8; Lc 928-36


Vocês não devem pensar, meus amigos, que Jesus, apesar de ser o Filho de Deus, fosse, na aparência, muito diferente dos outros homens. Sim, certamente, alguma coisa de extraordinário e de sobrenatural devia irradiar da sua divina Pessoa, mas não tanto que se pudesse reconhecer como aquele que, verdadeiramente era. Acreditavam-no um Profeta, que tivesse voltado sobre a terra, talvez Elias ou Jeremias ou talvez João, o Batista. Ficavam estupefatos diante dos milagres, que ele operava, mas não iam além disso. Somente Pedro, interrogado, certo dia, pelo divino Mestre, declarava reconhecê-lo pelo “Cristo Filho de Deus vivo”.
Mas, já era tempo do Messias revelar-se mais claramente, ao menos para os Apóstolos mais fieis.
Jesus tinha subido a um monte muito alto, chamado Monte Tabor. Tinha levado consigo Pedro, Tiago e João, aqueles três Apóstolos que, depois, estariam com ele, durante sua agonia, no Horto das Oliveiras. Estavam cansados pela subida e pelo calor. Depois de terem admirado a esplêndida vista que dali se desconrtinava, deitaram-se e dormiram. Jesus, ao contrário, vigiava, absorto em sublime oração.
De repente, Jesus se transfigurou, isto é, sua divina Pessoa tornou-se toda um esplendor e suas vestes apareceram alvas e fulgurantes de viva luz. De um lado e de outro de Jesus, estavam duas grandes personagens do Antigo Testamento, Moisés e Elias.
Os Apóstolos, despertados por aquele ofuscante clarão, viram a glória do seu Mestre e parecia-lhes estar no Paraíso. Pedro exclamou:
- “Mestre, fiquemos aqui para sempre! Se quiserdes levantaremos tres Templos, um para ti, um para Moisés e outro para Elias!”
“Não digais nada a ninguém, enquanto o Filho do homem não tiver ressuscitado dos mortos”. Eles não compreendiam aquelas palavras e diziam uns aos outros:
- “O que significa “quando eu ressuscitar dos mortos:”
Mas logo um nuvem envolveu todos na sua sombra e uma voz se fez ouvir:

- “Este é o meu Filho muito amado, escutai-o!”Ao ouvir aquela voz, os discípulos, tomados de misterioso tremor, caíram de bruços e não ousavam levantar a cabeçaa. Mas, o divino Mestre, aproximando-se, despertou-os dizendo:
- "Levantai-vos e não temais!”E, levantando-se, olharam em torno de si e só viram Jesus. Viram só Jesus, no seu aspecto de sempre, mas agora sabiam quem ele era! E, proclamariam em altas vozes, diante de todos aquilo que viram e ouviram, se, ao descer do monte, o divino Mestre não lhes tivesse dado esta ordem:
-
Vocês veem claramente, que se Jesus devia ressuscitar, necessariamente tinha de morrer. Isto, ele queria que os três Apóstolos compreendessem. Mas, como era difícil pensar, que Jesus, sendo o Filho de Deus, devesse ao mesmo tempo, morrer, crucificado, sob a violência de homens malvados!
Agora Jesus está na glória do Céu e reina sobre toda a terra e é adorado e amado por inúmeros corações. Mas, infelizmente, muitos e muitos ainda não o conhecem. Nem a todos ele se manifesta. É preciso segui-lo; é preciso subir com ele, acima de todas as agitações mundanas. Felizes aqueles que estão em prece junto dele. Esses provam quanto ele é grande quanto é amável. Por isso, se vissem todos os homens de declarar-se contra Jesus, eles, sozinhos, o glorificaram diante do mundo inteiro.
Encontre um minutinho, todos os dias, para visitá-lo no Santo Tabernáculo e, para dizer-lhe bem de pertinho:
“Como sou feliz junto de ti, ó meu Senhor!
Ainda que nada veja com meus olhos sensíveis,
sei que estás presente, ó predileto Filho único de Deus,
vindo entre nós e para nós!
Eu te amo, eu te quero escutar sempre sempre!”
(Pequena Bíblia – P. César Gallina)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cânticos protestantes em celebrações católicas...

A pedido de amigos abordaremos a temática acima.

Não é conveniente adotar cânticos protestantes em celebrações católicas pelas razões seguintes:
1) Lex orandi Lex credendi (Nós oramos de acordo com aquilo que cremos). Isto quer dizer: existe grande afinidade entre as fórmulas de fé e as fórmulas de fé e as fórmulas de oração; a fé se exprime na oração, já diziam os escritores cristãos dos primeiros séculos. No século IV, por ocasião da controvérsia ariana (que debatia a Divindade do filho), os hereges queriam incutir o arianismo através de hinos religiosos, ao que S. Ambrósio opôs os hinos ambrosianos.
Mais ainda: nos séculos XVII-XIX o Galicanismo propugnava a existência de Igrejas nacionais subordinadas não ao Papa, mas ao monarca. Em consequência foi criado o calendário galicano, no qual estava inserida a festa de São Napoleão, que podia ser entendido como um mártir da Igreja antiga ou como sendo o Imperador Napoleão.
Pois bem, os protestantes têm seus cantos religiosos através de cuja letra se exprime fé protestante. O católico que utiliza esses cânticos, não pode deixar de assimilar aos poucos a mentalidade protestante; esta é, em certos casos, mais subjetiva e sentimental do que a católica.
2) Os cantos protestantes ignoram verdades centrais do Cristianismo: a Eucaristia, a Comunhão dos Santos, a Igreja Mãe e Mestra... Esses temas não podem faltar numa autêntica espiritualidade cristã.
3) Deve-se estimular a produção de cânticos católicos com base na doutrina da fé.

Te Deum (A Vós, ó Deus)

A vós, ó Deus, louvamos,
a vós, Senhor, cantamos.
A vós, Eterno Pai,
adora toda a terra.

A vós cantam os anjos,
os céus e seus poderes:
Sois Santo, Santo, Santo,
Senhor, Deus do universo!

Proclamam céus e terra
a vossa imensa glória.
A vós celebra o coro
glorioso dos Apóstolos,

Vos louva dos Profetas
a nobre multidão
e o luminoso exército
dos vossos santos Mártires.

A vós por toda a terra
proclama a Santa Igreja,
ó Pai onipotente,
de imensa majestade,

e adora juntamente
o vosso Filho único,
Deus vivo e verdadeiro,
e ao vosso Santo Espírito.

Ó Cristo, Rei da glória,
do Pai eterno Filho,
nascestes duma Virgem,
a fim de nos salvar.

Sofrendo vós a morte,
da morte triunfastes,
abrindo aos que têm fé
dos céus o reino eterno.

Sentastes à direita
de Deus, do Pai na glória.
Nós cremos que de novo
vireis como juiz.

Portanto, vos pedimos:
salvai os vossos servos,
que vós, Senhor, remistes
com sangue precioso.

Fazei-nos ser contados,
Senhor, vos suplicamos,
em meio a vossos santos
na vossa eterna glória.

Salvai, o vosso povo.
Senhor, abençoai-nos e guardai-nos
Até a vida eterna.

Senhor, em cada dia,
fieis, vos bendizemos,
louvamos vosso nome
agora e pelos séculos.

Dignai-vos, neste dia,
guardar-nos do pecado.
Senhor, tende piedade
de nós, que a vós clamamos.

Que desça sobre nós,
Senhor, a vossa graça,
porque em vós pusemos
a nossa confiança.

Fazei que eu, para sempre,
não seja envergonhado:
Em vós, Senhor, confio,
Sois vós minha esperança!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Guarda o depósito!" (1Tm 6,20)

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

São Paulo exorta seu discípulo Timóteo a guardar intato o depósito da fé; cf. 1Tm 6,Tm 1,14. – Nesta exortação há nítida referência às leis greco-romanas concernentes aos depósitos.
Com efeito; o depósito (parathéke) era um valor que alguém entregava a outrem para que o guardasse e oportunamente o devolvesse. Selava-se entre o depositante e o depositário um contrato baseado na confiança e na certeza da fidelidade. O depositário se obrigava a não fazer uso da coisa depositada; seria processado, se o fizesse.
O depositário infiel incorria na ira dos deuses. Os moralistas gregos eram muito severos, equiparando a não restituição do depósito ao adultério ou à infidelidade conjugal; era mais grave do que não pagar uma dívida, porque traía a confiança de um amigo. Alguns depósitos se faziam nos templos, pois os guardas dos templos inspiravam mais confiança do que os banqueiros.
São estas concepções que a palavra “depósito (parathéke)” supõe nos textos paulinos.
Com efeito; o Apóstolo diz ter recebido de Cristo o depósito da fé: “Não recebi o Evangelho nem o aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl. 1,25-29). A lei não permitia que o retocasse; cf. 1Tm 1,11; 2Tm 2,8.10; Cl 1,25-29. São Paulo se considera mero ministro ou servidor do Evangelho (1Cor 4,1); era apenas um delegado do Senhor Jesus, e não um dono do depósito; ele não havia criado a mensagem que apregoava e, por isto, não havia de a modificar; ao contrário, ele a queria transmitir intata: “Não falsificamos a Palavra de Deus; muito pelo contrário, manifestando a verdade, procuramos ganhar a confiança de todos os homens” (2Cor 4,2). Daí poder o Apóstolo dizer no fim da vida: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).
Por isto também esperamos ouvir a sentença dirigida ao servo bom e fiel: “Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, Justo Juiz, naquele Dia” (2Tm 4,8; cf. Mt 25,23).
O depósito recebido de Jesus Cristo, o Apóstolo o havia passado a Timóteo (2tm 1,6.14), para que Timóteo o transmitisse a outros homens fieis, e estes a mais outros: “O que aprendeste de mim na presença de numerosas testemunhas, confia-o a homens fieis, que por sua vez, serão capazes de ensiná-lo a outros mais” (2Tm 2,2).
Pois bem; a designação da mensagem do Evangelho como depósito enfatiza a intocabilidade das verdades da fé tais como nos foram transmitidas pelos Apóstolos (que as receberam de Jesus Cristo) através de gerações até hoje. A heresia ou deterioração do depósito da fé é assemelhada à gangrena (2Tm 2,7).
As advertências do Apóstolo conservam seu pleno sentido em nossos dias. A fé exige coerência; é sempre a adesão a Deus, que nos fala na penumbra da vida presente. O cristão ou aceita este santo depósito com toda a sua grandeza ou – o que Deus não permita – o rejeita; não ouse, porém, retocá-lo ou deteriorá-lo!
Revista Pergunte e Responderemos – Julho 1995 – nº 398

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dom Estêvão faz a conclusão sobre o tema: Os 21 Concílios Ecumênicos...

CONCLUSÃO

Quatro observações parecem oportunas à margem da história dos Concílios:

1) Os Concílios refletem nitidamente a história da Igreja e seus embates. Foram solenes assembleias em que a Igreja comunitariamente se voltou para os desafios que a caminhada através dos tempos lhe suscitava. As decisões dos Concílios, por isto, hão de ser lidas e compreendidas sempre à luz do respectivo contexto histórico.
2) Os primeiros Concílios eram convocados pelos Imperadores e não pelo bispo de Roma ou o Papa. A Igreja, em seus primeiros séculos, embora fosse confiada a Pedro, não podia ter governo tão centralizado como o teve a partir da Idade Média, visto que as comunicações eram outrora difíceis entre Oriente e Ocidente. Contudo, para que as definições dos Concílios tivessem autoridade, foi sempre necessário que o bispo de Roma as aprovasse e confirmasse. Nenhum Concílio tem poder de decisão sem a participação e o apoio do Papa, ainda que esta aprovação lhe seja dada depois de realizado o Concílio.
3) A teoria conciliarista, que pretendia estabelecer os Concílios acima dos Papas, não representava o pensamento tradicional da Igreja e, por isso, não prevaleceu. Violava o conceito de Igreja, sacramento e dom de Deus, em favor da concepção de Igreja, sociedade meramente humana ou “república”.
4) Quem estuda a história dos Concílios (infelizmente a que vai proposta nestas páginas, teve de ser resumida ao extremo), tem a ocasião de reconhecer a ação de Deus entre os homens. A Igreja subsiste até hoje não por causa dos valores dos homens que a integram (estes valores existiram e existem, sem dúvida!), mas por causa da presença eficaz de Deus que a sustenta através dos séculos.

21. Concílio do Vaticano II (1962-65)


Como dito, o Concílio do Vaticano I ficou incompleto, deixando em suspenso diversas questões teológicas e pastorais.
Os Papas desde São Pio X (1903-14) pensaram em reativar os trabalhos do Concílio: todavia as circunstâncias não favoreciam tarefa de tal envergadura. Foi a coragem do idoso Papa João XXIII (1958-63) que convocou o 21º Concílio Ecumênico da história aos 25/01/1959). Este certame foi inaugurado aos 11/10/1962, sob João XXIII, e encerrado aos 7/12/1965, sob o Papa Paulo VI. Tinha em mira, de modo geral, realizar o aggiornamento ou a atualização da Igreja numa época em que os costumes e as mentalidades evoluem com rapidez surpreendente. O alcance deste Concílio foi enorme: sem perder o contato com a Tradição, os padres conciliares promulgaram dezesseis documentos (Constituições, Decretos, Declarações), que levaram em consideração os principais temas que se impunham à reflexão da Igreja. O Concílio teve índole eminentemente pastora, isto é, visou à vida cristã e à sua disciplina, em vez de se voltar para definições de fé ou de Moral. A abertura equilibrada dos documentos conciliares pode ser percebida em seus traços marcantes:
- renovação da Liturgia, que deveria ser celebrada em estilo mais comunitário e acessível aos fiéis;
- reafirmação da Igreja como sacramento, estruturado por Pedro e a hierarquia, sem deixar de responsabilizar, na medida precisa, todo o povo de Deus;
- abertura para os demais cristãos (protestantes, ortodoxos e outros) que não se acham em plena comunhão com a Igreja de Cristo entregue a Pedro e seus sucessores;
- declaração sobre a liberdade religiosa, que significa o direito, inerente a todo homem, de formar livremente a sua consciência diante de Deus e da fé;
- tomada de posição da Igreja frente às diversas facetas que o mundo de hoje lhe apresenta: família, comunidade política, economia, cultura, paz e guerra...
Em síntese, pode-se dizer que o Concílio do Vaticano II foi um das mais significativas realizações da Igreja nos tempos modernos, portadora de amplas consequências (das quais algumas foram menos felizes em virtude de falsa compreensão dos textos e da mente dos padres conciliares).
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

20. Concílio do Vaticano I (1869-70)


Após o Concílio de Trento, a tendência ao esfacelamento dos valores da Idade Média mais e mais se fez sentir. A Revolução Francesa (1789) significou o brado da razão e do nacionalismo contra a fé. Seguiu-se-lhe o século XIX, que foi marcado pelo materialismo e o ateísmo fora da Igreja, e dentro da Igreja pelos ecos das tendências conciliares e do separatismo, que solapavam a autoridade papal e a unidade da Igreja. Foram estes fatores que induziram o Papa Pio IX (1846-78), aconselhado por eminentes figuras do episcopado e do laicato católicos, a convocar o 20º Concílio Ecumênico para o Vaticano. A grande assembleia de 764 padres conciliares se reuniu de 8/12/1869 a 20/10/1870, tendo por objetivo fazer frente ao racionalismo do século XX, como o Concílio de Trento fizera frente ao protestantismo do século XVI.
Infelizmente o Concílio foi suspenso (não encerrado, porém) prematuramente por causa do início da guerra franco-alemã em setembro de 1870. Promulgou, porém, duas Constituições Dogmáticas de real importância:
- uma, a Dei Fillus, sobre a fé católica ensina que Deus se revela através da criação como também através de Jesus Cristo; por conseguinte, pode ser reconhecido tanto pela razão como pela fé, as quais não podem estar em desacordo entre;
- a outra, a Pastor Aeternus, referente à Igreja, definiu a infalibilidade do Pontífice Romano quando fala ex cathedra sobre assuntos de fé e de Moral.
O Concílio trataria também dos bispos e dos demais membros da Igreja se não tivesse sido interrompido abruptamente. Tal tarefa haveria de ser a do Concílio do Vaticano II.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

19. Concílio de Trento (1545-47, 1551-52, 1562-63)

Este foi o mais importante Concílio de toda a história, importância esta que se explica pela problemática que enfrentou (a Reforma protestante) e as soluções que adotou.

Pouco depois de lançar o seu brado de protesto contra a Igreja em 1517, Lutero apelou para a realização de um Concílio Ecumênico que considerasse os pontos por ele lançados em rosto à Igreja.

Todavia este apelo só começou a encontrar resposta sob o pontificado de Paulo III (1550-55). As razoes do adiamento era várias: o Papa Leão X não deu grande importância ao gesto de Lutero; além disto, havia certa resistência da parte dos clérigos, a uma reforma dos costumes na Igreja; ademais a situação geral da Europa era de agitação política.

Foi precisamente a agitação religiosas e política da Europa que cindiu a realização do Concílio em três etapas na cidade de Trento:

A primeira fase (1545-47) definiu mais uma vez o cânon das S. Escrituras e declarou a Vulgata latina isenta de erros teológicos. Abordou as questões discutidas sobre o pecado original, a justificação, os sacramentos, a residência dos bispos nas respectivas dioceses. A peste tendo começado a grassar em Trento, o Papa transferiu o Concílio para Bolonha. O Imperador Carlos V tendo-se oposto a esta determinação, foi necessário suspender o Concílio.

A segunda fase continuou em Trento (1551-52) sob o Papa Júlio III (1550-55). Promulgou longa exposição e cânones sobre a Eucaristia (presença real, transubstanciação, culto...). Algo de semelhante ocorreu no tocante ao sacramento da Penitência (necessidade, partes essenciais, satisfação) e ao da Unção dos Enfermos (origem, efeitos, ministro, sujeito...). O Concílio, aos 28/04/1552, foi mais uma vez suspenso por motivo de pressões políticas.

O Papa Pio IV (1559-1565) reabriu o Concílio aos 18/01/1562. Esta terceira fase reafirmou as verdades referentes ao S. Sacrifício da Missa, aos sacramentos da Ordem, do Matrimônio, ao purgatório, à invocação dos santos, às imagens e às indulgências. Promulgou também resoluções a respeito dos Religiosos e das monjas.

Pela Bula Benedictus Deus (26/01/1564) Pio IV confirmou todos os textos conciliares, dando por encerrado o Concílio; que havia de marcar profundamente o catolicismo dos tempos modernos.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

18. Concílio do Latrão V (1512-1517)


A vida da Igreja, após o Concílio de Ferrara-Florença, viu-se agitada por causas diversas: persistência de correntes conciliares, que eram fomentadas pelos monarcas desejosos de criar Igrejas nacionais independentes de Roma...; além do que, havia necessidade de sérias medidas disciplinares.
Diante disto, o Papa Júlio II convocou mais um Concílio Ecumênico, que foi inaugurado aos 03/05/1512 e só se encerrou aos 16/03/1517 sob o pontificado do Papa Leão X. Condenou a Pragmática Sanção de Bourges, declaração que favorecia a criação de uma Igreja Nacional de França. Com isto o conciliarismo foi mais uma vez rejeitado. Em lugar de tal documento, a Santa Sé e a França assinaram uma Concordata que regulamentava as relações entre os dois Estados.
No setor doutrinal o Concílio tomou posição de grande importância, condenando a tese segundo a qual a alma humana é mortal e uma só para todos os homens; tal tese, segundo o seu autor Pietro Pomponazzi, seria verídica no plano filosófico, ainda que falsa no plano teológico. – Foram outrossim tomadas medidas disciplinares relativas ao clero (seus estudos e sua formação) e à pregação; exigiu-se o Imprimatur para livros que versassem sobre fé ou teologia; seria queimado todo livro não munido da devida permissão.
Infelizmente, as resoluções do Concílio, oportunas como eram, não encontraram eco nos diversos países católicos, pois o clima da época, bafejado por cultura pagã, dificultava uma séria e profunda conversão dos cristãos. Como quer que seja, o Concílio do Latrão V preparou a grande Reforma da Igreja, promulgada pelo de Trento.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

17. Concílio de Ferrara-Florença (1438-1445)


Marinho V, desejoso de continuar a obra dos Concílios anteriores, convocou um Concílio Ecumênico para Basiléia (Suíça) em 1431. Eis, porém, que os padres em Basiléia reafirmaram o conciliarismo, rejeitado anteriormente – o que provocou conflitos entre a assembléia de Basiléia e o sucessor de Martinho V, que era Eugênio IV. Em consequência, este Papa resolveu dissolver o Concílio de Basiléia e convocar outro para Ferrara em 1438; esta assembleia teria por principal objetivo promover a reunião de gregos e latinos.
O Concílio de Ferrara, aberto aos 10/01/1438, contou com a presença do Imperador bizantino João o Paleólogo e de sua comitiva. Desabonou as resoluções do Concílio de Basiléia. A peste tendo surgido em Ferrara, o Papa Eugênio IV transferiu a assembleia para Florença. O tema principal dos estudos foi a extinção do cisma: após prolongadas conversações, os conciliares puseram-se de acordo sobre os pontos teológicos e disciplinares controvertidos, assinando a Bula Laetentur caeli de 0//07/1439. Também voltaram à unidade da Igreja cristãos monofisistas (coptas, etíopes e armênios).
Em fins de 1442, já tendo partido os gregos, o Papa transferiu o Concílio para Roma. Nesta cidade, ainda voltaram à unida da Igreja os monofisistas da Mesopotâmia, alguns grupos de nestorianos (caldeus) e de maronitas (monotelitas) da ilha de Chipre.
Infelizmente, a união com Bizâncio foi efêmera, pois os prelados do Patriarcado de Constantinopla se recusaram aceitá-la.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

16. Concílio de Constança (1417)


A crescente ingerência da França na história do Papado levou não somente ao exílio de Avinhão (1305-1378), já mencionado anteriormente, mas também ao Grande Cisma do Ocidente. Com efeito, quando o Papado voltou a fixar residência em Roma no ano de 1378, o primeiro conclave realizado na Cidade Eterna elegeu o Papa Urbano VI (1378-89), ao qual um grupo de Cardeais, influenciado pelo rei da França, opôs o antipapa Clemente VIII (1378-94), que ocupou a sede de Avinhão. Houve então, daí por diante, duas obediências na Igreja: a de Roma, autêntica, e a de Avinhão, espúria. Desejosos de remediar a este mal, vários Cardeais e bispos se reuniram em Pisa num “pseudo-Concílio ecumênico” de 1409; declararam depostos o Papa e o antipapa e elegeram Alexandre V, que se tornou o segundo antipapa, com sede em Pisa.
A situação perplexa assim oriunda foi superada aos poucos pela intervenção do Imperador Sigismundo (1410-37). Este resolveu convocar um Concílio para Constança em 1414. Tal assembleia não era legítima, pois se reunia sem a aquiescência do Papa ou do bispo de Roma; os bispos e teólogos reunidos começaram por afirmar o conciliarismo ou declarar (ilegitimamente) a supremacia do Concílio Ecumênico sobre o Papa, de tal modo que o Romano Pontífice deveria submeter-se às decisões do Concílio. Em consequência, depuseram o antipapa João XXIII. Quanto a Gregório XII, o Papa legítimo, resolveu convocar os Padres Sinodais reunidos em Constança, para que doravante pudessem constituir autêntico Concílio Ecumênico; tendo os referidos bispos aceitado o mandato, Gregório XII renunciou às funções papais, de modo que a cátedra de Pedro ficou vacante. Por sua vez, Bento XIII, o antipapa residente na Catalunha, foi deposto pelo Concílio – Estava assim aberta a via para a legítima eleição do sucessor de Gregório XII. O novo Papa foi finalmente escolhido aos 11/11/1417 com o nome de Martinho V.
O Concílio de Constança só se tornou legítimo a partir da sua 36ª sessão, ou seja, depois que Gregório XII lhe conferiu autoridade para agir. Donde se vê que a apologia do conciliarismo feita anteriormente não tem valor teológico ou jurídico. Após a eleição de Marinho V, os padres conciliares ainda condenaram a doutrina de João Wiclef, João Hus e Jerônimo de Praga, que eram precursores de Lutero. Tomaram medidas relativas à disciplina do clero e estipularam que periodicamente se realizariam Concílios Ecumênicos para atender ao governo da Igreja.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

15. Concílio de Viena-França (1311-12)

O Papa Clemente V (1305-1314) teve que enfrentar o rei da França Filipe IV o Belo, que representava, na época, o surto do absolutismo dos monarcas independentes do Sacro Império Romano.
O rei cobiçava os bens da Ordem dos Templários. Esta era constituída por cavaleiros que, mediante votos religiosos, se consagravam a Deus e se comprometiam a defender os peregrinos da Terra Santa. No fim do século XIII os Templários haviam perdido a sua finalidade específica de cavaleiros; enriquecidos por doações, começaram a provocar a ambição do rei. Este então pôs-se a pressionar o Papa, levando-lhe acusações contra os Templários, a fim de obter a extinção da Ordem. Clemente V, não querendo assumir a sós a responsabilidade de tal atitude, convocou para 16 de outubro de 1311 o Concílio Ecumênico de Viena (França); o local se deve ao fato de que os Papas residiam em Avinhão desde 1305. – A assembleia se reuniu até 6/05/1312. Acabou cedendo às instâncias da situação criada pelo rei, declarando supressa a Ordem dos Templários. Estiveram na pauta conciliar também os Franciscanos, dos quais uma corrente, dita “dos Espirituais”, alimentava ideias exageradas ou mesmo heréticas sobre a maneira de viver a pobreza. O franciscano Pedro Olivi foi outrossim condenado por sua doutrina, que admitia no ser humano elementos intermediários entre a alma e o corpo.

O Papa Clemente V confirmou as decisões do Concílio.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

14. Concílio de Lião II (1274)

Após Frederico II a luta entre o Sacerdócio e o Império declinou – o que levou Gregório X (1271-1276), um santo Pontífice, a procurar o reatamento de cristãos bizantinos e ocidentais. Para tanto, escreveu ao Imperador Miguel VIII o Paleólogo, de Constantinopla, mostrando-lhe que a reunião de todos os cristãos fortalecidos fortaleceria a presença dos mesmos no Oriente. O Imperador Miguel mostrou-se disposto a aceitar a união com Roma, apesar dos protestos de dignitários da corte bizantina. Por isto, enviou legados a Lião, aonde o Papa convocara todos os bispos da Igreja. O Concílio durou de 7/05 a 17/07/1274. Conseguiu realmente a reunião de latinos e bizantinos sob o primado do Papa.

A fim de evitar as constantes intervenções políticas de Imperadores e nobres na eleição dos Papas, o Concílio promulgou novas medidas para garantir a liberdade dos eleitores, entre as quais a prescrição de permanecerem em local fechado a chave ou conclave.

O Papa Gregório X abriu e encerrou o Concílio dando plena aprovação aos seus atos.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

13. Concílio de Lião I (1245)

Ao grande Papa Inocêncio III sucederam-se Honório III (1216-1227), Gregório IX (1227-1241), Celestino IV (1241), Inocêncio IV (124301254). Este período foi, sem dúvida, glorioso para o Papado, mas caracterizou-se pela recrudescência da luta entre o Sacerdócio e o Império. Na Alemanha, o Imperador Frederico II (1215-50) foi pessoa marcante; afilhado do Papa Inocêncio III, teve uma corte de soberano oriental ou sultão, dada ao luxo desenfreado e um tanto recoberta pelo véu do mistério.

Inocêncio IV, sentindo-se inseguro em Roma, transferiu sua residência para Lião na França, onde poderia contar com a tutela do rei São Luis IX. Lá o Papa quis reunir os bispos da Igreja universal para considerar o procedimento do Imperador, as invasões dos árabes e dos mongóis no Oriente e a reunião dos cristãos gregos com os latinos. O Concílio durou de 28/06 a 17/07/1245, limitando-se quase unicamente a ouvir o depoimento de Tadeu de Suessa, delegado do Imperador, após o que o monarca foi excomungado.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

12. Concílio do Latrão IV (1215)

O pontificado de Inocêncio III (1198-1216) representa o apogeu do prestígio papal em toda a história da Igreja.

Ao termo da sua gestão, marcada entre outras coisas, pelo surto das Ordens mendicantes, pelo combate aos albigenses, pela intervenção em questão da Igreja da Inglaterra..., Inocêncio III quis reunir um Concílio Ecumênico. Convocado desde 19/04/1213 para abrir-se a 1º/11/1215, o Concílio teve sua primeira sessão aos 11/11/1215, com a presença de 412 bispos, 800 abades e Superiores de Ordens Religiosas, embaixadores de reis e nobres, que perfaziam uma bela imagem da grandeza da Igreja governada por Inocêncio. O Concílio decretou:


- a condenação dos albigenses e valdenses, assim como a dos erros de Joaquim de Fiore, que esperava o fim do mundo para breve, apoiando-se em falsa exegese bíblica: o Concílio professou a existência dos demônios como sendo anjos bons que abusaram do seu livre arbítrio pecando;


- a realização de mais uma cruzada para libertar o Santo Sepulcro de Cristo, que se achava nas mãos dos muçulmanos;


- a profissão de fé na Eucaristia, tendo sido então usada a palavra transubstanciação;


- a obrigação da confissão e da comunhão anuais.


O Concílio legislou ainda sobre vários pontos da disciplina e da Liturgia da Igreja, abrangendo ampla área da vida eclesial. Aprovado pelo Papa Inocêncio III, é o mais importante dos Concílios antes do de Trento.


Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

11. Concílio do Latrão III (1179)

A luta da Igreja medieval contra os Imperadores, de um lado, e contra males internos, de outro lado, prosseguiu mesmo após os Concílios anteriores.
Alexandre III teve um pontificado longo (de 1159 a 1181), durante o qual quatro antipapas se sucederam por instigação dos Imperadores germânicos, especialmente de Frederico I Barbarroxa (1152-1190). Eram Vitor IV (1159-64), Pascoal III (1164-68), Calisto III (1168-78). Inocêncio III (1178-80). Durante o mesmo pontificado agravou-se o movimento dos Cátaros ou Albigenses, hereges dualistas, que assolavam regiões do Norte da Itália e do Sul da França.
No final do seu pontificado Alexandre III quis reunir um Concílio Ecumênico pra tomar as providências exigidas pelas circunstâncias. Tal assembléia se reuniu na basílica do Latrão de 5 a 19 de março de 1179. Entre outras medidas promulgadas então, destacam-se:


- a regulamentação das eleições papais: doravante seriam exigidos 2/3 dos votos, ficando excluído qualquer recurso de autoridades leigas para dirimir dúvidas oriundas no processo eleitoral;

- rejeição do acúmulo de benefícios ou funções dentro da Igreja por parte de uma só pessoa;

- recomendação da disciplina da Regra aos monges e aos cavaleiros regulares, que interferiam indevidamente no governo da Igreja;

- promoção e organização do ensino, em favor de estudantes que não pudessem pagar seus mestres.

- condenação das heresias da época, que tinham um fundo dualista (catarismo) ou de pobreza mal entendida (a Pattária, o movimento dos Pobres de Lião ou Valdenses).

O Papa Alexandre III confirmou as decisões do Concílio.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

10. Concílio do Latrão II (1139)

Este dista do anterior apenas dezesseis anos. Foi convocado pelo Papa Inocêncio II (1130-1143) para reafirmar a unidade e a disciplina da Igreja após o cisma do antipapa Anacleto II. Na verdade, em 1130, quando morreu o Papa Honório II, foi eleito o Papa legítimo Inocêncio II; todavia uma facção elegeu ilegitimamente Pedro de Leão como antipapa Anacleto II. Este conseguiu prevalecer em Roma – o que levou Inocêncio II a deixar a cidade eterna. São Bernardo, tendo reconhecido Inocêncio como Pontífice legítimo, moveu reis, nobres e todo o povo de Deus a apoiarem o Papa. Este conseguiu voltar a Roma em 1133; finalmente, Anacleto faleceu aos 25/01/1138. Foi então que Inocêncio, desejoso de consolidar a unidade da Igreja, reuniu mais de quinhentos bispos e abades no Concílio do Latrão II, de 4 a 30/04/1139. Esta assembléia corroborou os cânones dos Concílios regionais anteriores, proibindo a simonia e o nicolaísmo; aos clérigos vetou outrossim o exercício da medicina e da advocacia. Rejeitou a usura ou os jutos; quem cedesse a esta prática, seria tido como infame.

Os decretos do Concílio foram confirmados por Inocêncio II.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

9. Concílio do Latrão I (1123)

Com o Concílio de Constantinopla IV termina a série dos Concílios Ecumênicos realizados no Oriente. Em 1054 deu-se o cisma de Constantinopla, que perdura até hoje (excetuados breves períodos de reatamento). De então por diante, os Concílios Ecumênicos serão todos celebrados no Ocidente.

Nos séculos X e XI, a Igreja latina sofreu do mal da ingerência do poder político na distribuição dos bispados: os Imperadores e os senhores feudais queriam nomear os prelados de acordo com os seus interesses políticos, praticando assim o que se chama “a investidura de leigos”, à autoridade eclesiástica tocaria apena dar a ordem sacra ao candidato designado exclusivamente pelo poder civil. Como se compreende, desta prática resultam bispos sem vocação pastoral e, consequentemente, o clero se ressentia de relaxamento da respectiva disciplina; havia outrossim simonia e nicolaísmo*. Em Roma, a própria cátedra de Pedro era cobiçada pelas famílias nobres da cidade e das redondezas, que tentavam impor-lhes os seus favoritos.

Com o Papa Gregório VII (1073-85) começou a forte réplica da Igreja a tal situação ou a luta do sacerdócio e do Império, que redundaria em fortalecimento do Papado. Em 1122 o Papa Calixto II (1119-1124) e o Imperador Henrique V assinaram a Concordata de Worms, que assegurava à Igreja plena liberdade na escolha e ordenação de seus bispos. Tal resultado foi promulgado pelo Concílio do Latrão I, convocado pelo Papa Calixto II para Roma e celebrado de 18/03 a 16/04/1123 por cerca de trezentos bispos e abades.

Os cânones definidos pelo Concílio versavam todos sobre a disciplina eclesiástica. Com efeito, voltaram-se contra a simonia, o nicolaísmo e proibiram a ordenação de bispos que não tivessem sido escolhidos canonicamente.

Em particular no tocante ao celibato sacerdotal, note-se que desde os primeiros séculos foi abraçado espontaneamente pelos clérigos, o Concílio de Elvira (Espanha), por vota de 306, foi o primeiro a promulgar tal praxe em âmbito regional; no decorrer dos séculos, subsequentes Concílios regionais confirmaram o celibato dos clérigos. O Concílio do Latrão I não criou a lei do celibato, mas apenas corroborou a legislação vigente nas diversas régios da Igreja, usando os seguintes termos:

“Proibimos expressamente aos presbíteros, diáconos e subdiáconos viver com concubinas e esposas como coabitar com outras mulheres; excetuam-se apenas aquelas com as quais o Concílio de Nicéia permitiu habitar unicamente por motivo de necessidade, a saber: mãe, irmã, tia paterna e outras a respeito das quais não pode haver suspeita”.

As decisões do Concílio do Latrão I foram confirmadas pelo Papa Calixto II.

*A palavra nicolaísmo designa o concubinato do clero, que os medievais julgavam estivesse indiretamente mencionado em Ao 2,6.15, onde há referência aos seguidores de Nicolau.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

8. Concílio de Constantinopla IV (869/870)

A exposição até aqui mostra como os cristãos orientais eram propensos a discussões teológicas, às vezes de índole sutil. Tais controvérsias punham não raro o Oriente em confronto com o Ocidente, especialmente com a sé de Roma, onde havia menos acume dialético.

As tensões foram, a partir de 859, alimentadas pela atitude do patriarca Fócio de Constantinopla. Este em 867 reuniu um Sínodo em Constantinopla que, sob a inspiração de Fócio, proferiu a condenação da sé de Roma. Então o Papa Adriano II (867-872) e o Imperador Basílio I (867-886) entenderam-se sobre a convocação de um Concílio Ecumênico, que teve lugar em Constantinopla de 5/10/869 a 28/02/870; os padres conciliares assinaram um documento que prescrevia a todos a submissão à Igreja de Roma, “na qual a fé sempre se conservou sem mancha”. Fócio foi condenado por fomentar o cisma. O Concílio reafirmou outrossim a ordem de precedência das cátedras patriacais: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia, Jerusalém.

O culto das imagens foi confirmado.

O Papa Adriano II aprovou as decisões do Concílio.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

7. Concílio de Nicéia II (787)

O Concílio de Constantinopla III encerrou a série de controvérsias teológicas sobre Jesus Cristo, sua Divindade e sua humanidade; os pontos essenciais referentes à SS. Trindade e à Encarnação do Filho estavam definidos.
Todavia os teólogos não cessaram de estudar as verdades da fé. Novo motivo de disputas veio a ser o uso de imagens nas igrejas, dando ocasião à controvérsias iconoclasta. Desde os primeiros séculos os cristãos costumavam pintar e esculpir as figuras de Cristo e dos santos, não a fim de adorá-los, mas no intuito de melhor poder voltar sua atenção para o Senhor e seus irmãos mártires ou confessores da fé.
Todavia, sob a influência do judaísmo e do islamismo, houve cristãos no século VIII que se puseram a combater o uso das imagens; os Imperadores Leão III o Isáurico (717-741), Constantino V Coprônimo (741-775), Leão IV (775-780) favoreceram o iconoclasmo. O principal defensor das imagens foi São João Damasceno (+ 749), que, juntamente com outros cristãos, padeceu árdua perseguição por causa de sua fidelidade à Tradição cristã.
Morto Leão IV, a rainha-mãe regente, que patrocinava o culto de imagens, resolveu, de comum acordo com o Papa Adriano I (772-795), convocar um Concílio Ecumênico para Nicéia. Este realizou-se de 24/09 a 23/10/787; foi então lida a carta do Papa ao Patriarca Tarásio de Constantinopla e a Irene em favor das imagens; o Concílio declarou outrossim que reconhecia a intercessão de Maria, dos anjos e dos santos, assim como o culto da Cruz e das imagens; tal culto seria relativo ao Senhor Jesus e aos santos, de modo tal que ao primeiro (Jesus Cristo) se prestaria adoração e aos santos veneração.
Após o Concílio, a luta ainda continuou, salientando-se então o patriarca Nicéforo de Constantinopla e o monge Teodoro Studita como defensores das imagens.
No Ocidente o Imperador Carlos Magno (800-814) mostrou-se propício ao iconoclasmo, o que não teve graves consequências na vida do povo cristão.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.
Imagens:

6. Concílio de Constantinopla III (680/1)


O monofisismo, que não se extinguiu após o Concílio de Calcedônia, assumiu nova forma (assaz sutil) chamada monotelitismo. Este ensinava que em Cristo havia uma só vontade (a divina) e um só princípio de atividade ou energia (o divino) – o que redundaria em unidade de natureza ou monofisismo. O protagonista desta tese era o Patriarca Sérgio de Constantinopla, ao qual se opunha Sofrônio de Jerusalém. A disputa suscitou, da parte do Imperador Constantino IV Pogonato (668-685), a convocação de bispos, inclusive legados papais, para Constantinopla; assim teve origem mais um Concílio Ecumênico (7/11/680 a 16/09/681). O monotelitismo foi então condenado e afirmou-se a existência, em Cristo, de duas vontades (a divina e a humana) moralmente unidas entre si, e de dois princípios de atividade.

Os Papas S. Agatão (678-681) e São Leão II (682-683) confirmaram as sentenças do Concílio.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

5. Concílio de Constantinopla II (553)


O Concílio de Calcedônia não conseguiu pôr termo às controvérsias cristológicas. Em 527 subiu ao trono imperial de Bizâncio Justiniano I, que muito se interessava por assuntos teológicos, em consequência, julgou que serviria à causa da verdade e da Igreja se condenasse três autores do século V tidos como nestorianos: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoro de Ciro e Ibas de Edessa. Originou-se assim a controvérsia dos Três Capítulos, visto que os bispos orientais assumiram atitudes diversas diante da posição de Justiniano. Este constrangeu o Papa Vigílio a ir de Roma a Constantinopla para apoiar o Imperador. Finalmente Justiniano resolveu convocar um Concílio Ecumênico para dirimir a controvérsia. Este, reunido em Constantinopla de 5/05 a 2/06/553, condenou os Três Capítulos. O Papa Vigílio aprovou tal condenação depois de proclamada pelo Concílio, dando assim foros de legitimidade tanto ao Concílio de Constantinopla II quanto ao seu decreto condenatório.
O Papa S. Gregório I, em 591, confirmou o mencionado Concílio, que foi fortemente agitado por causa da indevida ingerência do Imperador.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

4. Concílio de Calcedônia (451)

O pensamento teológico, tendo superado o Nestorianismo (que cindia Jesus Cristo, atribuindo-lhe dois eu ou duas pessoas), esteve sujeito a movimento pendular. A tese da ortodoxia, que rejeitava a dualidade de pessoas, foi exageradamente enfatizada no chamado “monofisismo” ou “monofisitismo”. Com efeito, Eutiques de Constantinopla, adversário de Nestório e seguidor de S. Cirilo, ultrapassou o seu mestre, ensinando o seguinte: em Cristo, não havia apenas uma só pessoa (um só eu), mas havia também uma só natureza, visto que a natureza divina absorvera a humana.
Tal posição suscitou controvérsia, pois se lhe opunham Teodoreto de Ciro, Domno de Antioquia e o próprio Papa Leão I (440-461).
O Imperador Marciano (450-457) convocou então um Concílio Ecumênico para Éfeso, o qual, iniciado nesta cidade, foi transferido para Calcedônia (junto a Constantinopla); durou de 8 de outubro a novembro de 451. São Leão Magno, Papa, enviou seus legados, assim como uma carta que definia a doutrina ortodoxa: em Cristo há uma só pessoa, mas duas naturezas (a divina e a humana) não confundidas entre si. Tal doutrina foi aclamada pelos padres conciliares, que condenaram Eutiques e o monofisismo aos 25/10/451.
O Concílio de Calcedônia também se voltou para questões disciplinares condenando a simonia, os casamentos mistos e proibindo as ordenações absolutas (isto é, realizadas sem que o novo clérigo tivesse determinada função pastoral).
Em seu famoso cânon 28, o Concílio reconheceu à sé de Constantinopla, a cidade imperial, os mesmos privilégios que à de Roma. O Papa S. Leão Magno recusou-se a aprovar este cânon, visto que Roma é a sede dos Apóstolos Pedro e Paulo, ao passo que Constantinopla não foi sede de Apóstolos, mas derivava sua importância do simples fato de ser sede do Imperador.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

3. Concílio de Éfeso (431)


Após o estudo da SS. Trindade, os cristãos se detiveram sobre Jesus Cristo: como poderia ser Deus e homem ao mesmo tempo?
Levando adiante ideias de autores anteriores, Nestório, bispo de Constantinopla, pôs-se a combater o título Theotokos, Mãe de Deus, que os cristãos desde o século III atribuíam a Maria SS.... Tal título significava que em Jesus havia uma só pessoa – a divina -, que além de possuir tudo o que Deus possui, dispunha de verdadeira natureza humana. Para Nestório, a humanidade de Jesus seria apenas o templo ou o revestimento do Filho de Deus, a divindade teria passado por Maria, mas não nascera de Maria, o que implicava uma pessoa humana em Jesus distinta da segunda pessoa da SS. Trindade. Tal doutrina causou celeuma entre os cristãos, de modo que o Imperador Teodósio II (408-450) convocou um Concílio Ecumênico a se realizar em Éfeso (Ásia Menor) de junho a setembro de 431. O Papa S. Celestino I (422-432) fez-se representar por S. Cirilo de Alexandria.

O Concílio de Éfeso:
1) Condenou e depôs Nestório, rejeitando a sua doutrina. Não elaborou fórmula de fé, mas aprovou a segunda carta de S. Cirilo a Nestório.
2) Condenou o pelagianismo (doutrina excessivamente otimista no tocante à natureza humana) e o messalianismo (corrente de espiritualidade que apregoava a total apatia ou uma Moral indiferentista).

O Papa S. Celestino I confirmou as decisões do Concílio de Éfeso.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

2. Concílio de Constantinopla I (381)

Após a controvérsia sobre a Divindade do Logos, os cristãos se voltaram para a do Espírito Santo: houve quem professasse ser o Espírito Santo mera criatura. O arauto principal desta tese foi Macedônio, bispo de Constantinopla; donde o nome de Macedonismo ou Pneumatomaquismo que lhe foi dado. O Imperador Teodósio (379-395), zeloso da reta fé, houve por bem convocar novo Concílio Ecumênico, desta vez para Constantinopla. Esta assembléia reuniu-se de maio a julho de 381. Firmou três decisões principais:

1) O Espírito Santo é Deus, da mesma substância que o Pai e o Filho. Em consequencia, o Símbolo de fé Niceno foi completado com as palavras:

“Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai, que é adorado e glorificado com o Pai e o Filho e que falou pelos Profetas”.

2) Foram condenados todos os defensores do arianismo sob qualquer das suas modalidades.

3) À sede de Constantinopla ou Bizâncio foi atribuída uma preeminência sobre as demais logo após a de Roma, pois Bizâncio era considerada “a segunda Roma”.

O Concílio de Constantinopla I não contou com a presença do Papa ou de algum legado deste. Todavia foi reconhecido explicitamente pela Sé de Roma a partir do século VI, no que concerne às suas proposições de fé (Divindade do Filho e do Espírito Santo).
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

1. Concílio de Nicéia I (325)

O primeiro Concílio Ecumênico foi o de Nicéia I, reunido de 26/05 a 25/07) 325.

Desde o século II, os cristãos voltaram a sua atenção para as verdades da fé reveladas pelo Evangelho, procurando penetrar-lhes o sentido. Sem dúvida, uma das que mais se impunham à reflexão dos fiéis, era a questão do relacionamento de Jesus Cristo com Deus Pai ou com o único Deus (revelado no Antigo Testamento): seria Jesus realmente Deus ou apenas criatura?
Após correntes que concebiam Jesus como inferior ao Pai, o presbítero Ario de Alexandria em 312, começou a ensinar que o Logos (ou Filho) era, como criatura, subordinado ao Pai; daí os nomes de sua escola: arianismo ou subordinacionismo.
O Imperador Constantino, que concedera a paz aos cristãos mediante o Edito de Milão em 313, quis contribuir para a solução da controvérsia teológica assim originada, convocando um Concílio universal para Nicéia (Ásia Menor) em 325.
O Papa S. Silvestre, idoso como era, fez-se representar na assembleia, dando-lhe a autoridade legítima. Os padres conciliares, após acalorados debates,

1) Definiram que o Filho de Deus é consubstancial (homoousios) ao Pai – o que significa que não é criado, mas compartilha a essência do Pai (ou a Divindade). Esta verdade foi expressa no Símbolo de Nicéia;2) Fixaram a data de Páscoa, que seria celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera;3) Estabeleceram a ordem de dignidade dos Patriarcados: Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém.O Papa S. Silvestre confirmou as decisões do Concílio.
Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

Os 21 Concílios Ecumênicos

Ecumênico, aqui, é tomado no sentido de universal ou geral, pois supõe a universalidade dos Bispos católicos. A palavra nada tem que ver com o uso recente do adjetivo ecumênico, que pode significar em nossos dias o relacionamento de cristãos católicos com cristãos não católicos.

Na Revista Pergunte e Responderemos de Fevereiro de 1996, Dom Estêvão Bettencourt tratou de um assunto muito importante para nós, católicos, e para todos aqueles que se interessem em conhecer a História da Igreja Católica: Os Concílios.

A história da Igreja pode ser, de algum modo, compendiada na história dos seus Concílios Ecumênicos ou Gerais. Estes ocorreram vinte e uma vezes do século IV ao século XX, após convocação de todos os Bispos em comunhão com o Bispo de Roma, sucessor de Pedro. Tiveram por objetivo estudar temas doutrinários controvertidos, dirimir dúvidas, definir verdades de fé frente a heresia, atualizar a disciplina da Igreja... Um Concílio Ecumênico só tem autoridade quando convocado pelo Papa ou, ao menos quando suas decisões são aprovadas pelo Papa. O colegiado dos Bispos não tem o poder de definir ou legislar sem a participação do sucessor de Pedro.

Eis a sequência dos Concílios e depois veremos cada um situado em seu respectivo contexto histórico.

1.
CONCÍLIO DE NICÉIA I (325)
2. CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA I (381)
3. CONCÍLIO DE ÉFESO (431)
4. CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA (451)
5. CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA II (553)
6. CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA III (680/1)
7. CONCÍLIO DE NICÉIA II (787)
8. CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA IV (869/870)
9. CONCÍLIO DO LATRÃO I (1123)
10. CONCÍLIO DO LATRÃO II (1139)
11. CONCÍLIO DO LATRÃO III (1179)
12. CONCÍLIO DO LATRÃO IV (1215)
13. CONCÍLIO DE LIÃO (1245)
14. CONCÍLIO DE LIÃO II (1274)
15. CONCÍLIO DE VIENA-FRANÇA (1311-12)
16. CONCÍLIO DE CONSTANÇA (1417)
17. CONCÍLIO DE FERRARA –FLORENÇA (1438-1445)
18. CONCÍLIO DO LATRÃO V (1512-1517)
19. CONCÍLIO DE TRENTO (1545-47, 1551-52, 1562-63)
Este, como se verá adiante, o mais importante Concílio de toda a história...
20. CONCÍLIO DO VATICANO I (1869-70)
21. CONCÍLIO DO VATICANO II (1962-65)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Nossa Senhora de Lourdes...

Hoje, celebramos Nossa Senhora de Lourdes.
A Mensagem que a Santíssima Virgem deixou em Lourdes, pode ser resumida nos seguintes pontos:

1.- É um agradecimento do céu pela definição do dogma da Imaculada Conceição, que tinha sido declarado quatro anos antes por Pio IX (1854), ao mesmo tempo que assim apresenta Ela mesma como Mãe e modelo de pureza para o mundo que está necessitado desta virtude.
2.- Derramou inumeráveis graças físicas e espirituais, para que nos convertamos a Cristo em sua Igreja.
3.- É uma exaltação às virtudes da pobreza e humildade aceitas cristanamente, ao escolher a Bernadete como instrumento de sua mensagem.
4.- Uma mensagem importantíssima em Lourdes é o da Cruz. A Santíssima Virgem repete que o importante é ser feliz na outra vida, embora para isso seja preciso aceitar a cruz. "Eu também te prometo fazer-te ditosa, não neste mundo, mas no outro"
5.- Em todas as aparições veio com seu Rosário: A importância de rezá-lo.
6.- Importância da oraçao, da penitência e humildade (beijando o solo como sinal disso); também, uma mensagem de misericórdia infinita para os pecadores e do cuidado com os doentes.
7.- Importância da conversão e a confiança em Deus.

Hoje também nos lembramos mais especialmente daqueles que sofrem de alguma enfermidade: física, espiritual, emocional... Rezamos pedindo a interceção de Nossa Senhora de Lourdes, para que eles sejam confortados e nunca desistam de confiar em Deus!

Oração do enfermo
Senhor, coloco-me diante de ti em atitude de oração.
Sei que tu me vês, que tu me penetras, me ouves. S
ei que estou em ti e que tua força está em mim.
Olha para este meu corpo marcado pelo sofrimento e triturado pela enfermidade.
Tu sabes, Senhor, o quanto me custa sofrer.
Sei que tu não te comprazes com o sofrimento de teus filhos.
Ó Virgem, Mãe do meu Senhor, olhes por mim,
intercedas por mim, para que eu não desanime,
ao contrário, persevere e sinta a presença consoladora de Jesus
e a tua maternal companhia. Amém.

Você pode encontrar os temas abaixo no site: http://www.acidigital.com/Maria/lourdes/index.html
História - Nossa Mãe, manifesta de maneira direta e próxima seu profundo amor para conosco. Aparições
Conheça a história das aparições de Nossa Senhora de Lourdes.
Mensagens - A Mensagem que a Santíssima Virgem deu em Lourdes, resume-se em alguns pontos. Milagres - Conheça a história dos dois primeiros milagres de Nossa Senhora.
Santa Bernadete - Santa Marie Bernard -Bernadete- Soubirous naceu em 7 de janeiro, de 1844, em Lourdes, França. A Igreja e as aparições
Um pequeno resumo da manifestação da Igreja sobre as aparições.

Nossa Senhora de Lourdes, intecedei por nós!